Uma Fé Ardente de Todas as Almas

A Igreja nos encoraja a rezar pelas almas do purgatório, também chamadas de Igreja Padecente. O Purgatório é real? Parece até um mau presságio, mas sempre achei que a Igreja "padecente" e o purgatório (que significa lugar ou estado de purgação) são alguns dos mais esperançosos, ternos e belos ensinamentos da Igreja.

Ficou horrorizado?

Por meio das Escrituras e da história sagrada, o fogo tem sido associado à presença de Deus. O pacto abraâmico (Gênesis 15, 1-17), a sarça ardente (Êxodo 3, 1-8), o cordeiro pascal assado (Êxodo 12, 8-10), o pilar de fogo no deserto (Êxodo 13, 22), a entrega da Torá no Monte. Sinai (Êxodo 19, 18), o fogo contínuo do altar do tabernáculo, que se originou do céu e consumiu todos os sacrifícios posteriores (Levítico 9, 22-24), são todos exemplos do Antigo Testamento de como Deus usou o fogo para nos aparecer e dizer algo importante sobre Si mesmo.

Sempre coerente, posteriormente, no Novo Testamento, o Espírito Santo desceu em Pentecostes na forma de línguas de fogo (Atos 2, 3), e o fogo é reiteradamente utilizado como um símbolo de julgamento que destrói o que é escória mas purifica o que é autêntico nas almas homens. Ambos os santos Pedro e Paulo nos dizem que é o sofrer sob o fogo da provação e do julgamento que acabará por nos salvar (1Pedro 1, 6-9, 1Coríntios 3, 15)! Como pode ser isso?

C.S. Lewis fornece uma analogia vívida que mostra a necessidade do amor purificador que Deus mostra às almas no purgatório:

"Nossas almas têm necessidade do Purgatório, não? Não nos partiria o coração se Deus nos dissesse: 'É verdade, meu filho, que teu hálito fede e que de tuas roupas gotejam lama e lodo, mas nós somos caridosos aqui e ninguém vai censurar-te por causa dessas coisas, nem se afastar de ti. Entra na alegria'? Não deveríamos nós replicar: 'Com todo o respeito, senhor, e se não há nenhuma objeção, eu gostaria de ser purificado antes.' 'Isso pode doer, sabe' - 'Mesmo assim, senhor.'" (Cartas a Malcolm, C. S. Lewis).

O Purgatório é uma pessoa

No que se tornou uma das minhas passagens favoritas de todos os tempos das Escrituras, descobrimos algo absolutamente fantástico: "Porque nosso Deus é um fogo devorador" (Hebreus 12, 28). O santo e ardente amor de Deus por minha alma é o que me purifica do pecado, e essa purificação de minhas faltas, paixões e tendência ao pecado (concupiscência) é necessariamente dolorosa, porque é o abandonar e o queimar tudo o que é não é útil, benéfico, conducente ou que não combina com o amor de Deus.

Sacrificar-se pelos outros é doloroso. Obediência e humildade são dolorosos. Assim, a alma requer um processo (durante o tempo na aqui na terra e no "purgatório" na morte) para aprender e ser purificado por elas. Mas o sacrifício, a humildade e a obediência são a essência da caridade, do amor e do ser de Deus.

"Pois, se purificada como está, se mantivesse no fogo, este fogo não lhe causaria pena alguma; antes, bem lhe seria um fogo de amor divino, durável como de vida eterna, sem dano algum nem alguma contrariedade." (Tratado do Purgatório, St. Catarina de Gênova).

As provações ardentes da vida e o "estado" do purgatório são, assim, o fogo ciumento de Deus, que tudo consome, sondando e purificando-nos deliberada, profunda e intimamente de tudo o que impede a união eterna e total com Ele. O fogo das provações, o fogo do purgatório, a beatitude do céu e o fogo do inferno são todos o mesmo fogo. Mas a presença de Deus como "fogo" afeta a alma de maneira diferente dependendo da disposição e pureza da alma.

Esse sempre foi o ensinamento da Igreja. Segundo Santa Catarina de Gênova, esta é a razão pela qual as almas do purgatório são felizes em proporção ao seu sofrimento, "E assim, as almas do purgatório têm tão grande alegria como grandíssima pena, que uma coisa não impede a outra." (Tratado do o Purgatório). Elas estão um passo à frente de nós no processo e "vêem" a glória do "fogo" por si mesmas.

O Papa Bento XVI resumiu séculos de ensinamentos históricos sobre o purgatório. Ao falar sobre os místicos, ele disse, em vez de um "lugar" nas profundezas da terra ou um fogo exterior, eles viram o purgatório como um fogo interior. Eles entenderam que o purgatório é a experiência da alma e da consciência do imenso amor de Deus, da terna misericórdia e da perfeita justiça.

"E precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado." (Audiência Geral, 12.1.11).

Sofrer pelo sofrimento do castigo em si, NÃO é o propósito de qualquer provação ou purgatório; O propósito do sofrimento é a purificação que me faz apto a estar "com" Deus. Somente os puros de coração vêem a Deus (Mateus 5, 8). "Sede santos, porque eu sou santo" (1Pedro 1, 16).

Comunhão de amor

Asssim como nosso dever para com os amigos e parentes vivos, é nosso privilégio ajudar nossos entes amados que já partiram, rezando por eles que estejam neste processo de purificação, pois não podemos saber com certeza se suas almas estão no céu, no purgatório ou no inferno, mesmo que professem a fé em Cristo.

Durante todo o mês de novembro, então, a Igreja em sua sabedoria abençoa imensamente as orações que oferecemos pelas almas. Em particular, durante os primeiros dias do mês, as indulgências plenárias (integrais) estão disponíveis todos os dias. Isso significa que podemos potencialmente ajudar um ente querido a terminar o todo processo!

Duas maneiras de ganhar indulgências no mês de novembro:

  • Visitar uma igreja ou um oratório no Dia de Finados, 2 de novembro
  • Visitar um cemitério todos os dias entre 1 de novembro e 8 de novembro

Requisitos Gerais para obter uma Indulgência Plenária:

  • confissão sacramental,
  • comunhão eucarística,
  • rezar nas intenções do Sumo Pontífice (sugere-se uma Pai Nosso, uma Ave Maria e um Creio). Requer-se, além disso, rejeitar todo o apego ao pecado, qualquer que seja, mesmo venial.