Fornalha do Amor Divino: As Raízes Bíblicas do Purgatório

Para começar bem qualquer coisa, precisamos considerar o fim - onde queremos estar ou o que queremos realizar. Isso também é verdade para objetivos espirituais. Como pessoas humanas, nosso objetivo ou objetivo final é a união eterna com Deus, e um dos estados que a maioria de nós passará para alcançar esse fim abençoado é chamado de purgatório. A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição - que juntos formam o único depósito da fé - nos esclarecem sobre a realidade do purgatório. As formulações dos concílios da Igreja, especialmente os de Florença e Trento, bem como os escritos dos santos e estudiosos ao longo da história, aprofundam nossa compreensão.

As almas dos invejosos. Ilustração de Gustave Doré (século XIX).
As almas dos invejosos. Ilustração de Gustave Doré (século XIX).

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) define o purgatório como "O purgatório é o estado dos que morrem na amizade de Deus, mas, embora seguros da sua salvação eterna, precisam ainda de purificação para entrar na alegria de Deus." (Compêndio do CIC, 210; ver também CIC 1031, 1472). Como crentes no amor misericordioso de Deus, devemos querer ser purificados de nossos pecados e imperfeições; nesse sentido, devemos desejar o purgatório. É um estado de esperança, uma fornalha de amor divino que nos purifica para que possamos estar com Deus para sempre no céu. O purgatório nos torna perfeitos no amor de Deus. Como C.S. Lewis, o grande apologista cristão disse: " Nossas almas têm necessidade do Purgatório, não?"

Aqui estão algumas maneiras úteis que encontrei para falar sobre o purgatório com não-católicos (e aqueles católicos que pensam que o purgatório é uma relíquia do passado pré-Vaticano II da Igreja):

  1. Deus é perfeito; ele é todo santo. Nada impuro pode entrar em sua presença (ver Apocalipse 21, 27). Portanto, devemos ser perfeitamente santos antes de podermos entrar no céu (ver Hebreus 12, 14).
  2. Embora possamos nos esforçar para cooperar com a graça salvadora de Deus, a maioria de nós morrerá com imperfeições e apegos ao pecado.
  3. Portanto, deve haver um estado intermediário entre a morte do corpo e o céu que nos purifique de nossas imperfeições e nos prepare para entrar na presença de todos os santos de Deus. A Igreja definiu esse estado como "purgatório".

Muitos estudiosos das Escrituras Católicas acreditam que São Paulo está descrevendo o purgatório em sua primeira carta aos Coríntios:

"Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) irá demonstrá-lo. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o cons­trutor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo." (1Coríntios 3, 10-15).

Depois de falar sobre construir nossas vidas no alicerce de Cristo, Paulo se volta para a nossa morte, quando todas as nossas obras serão reveladas. O termo "o dia" fala do nosso julgamento particular após a morte (Hebreus 9, 27). Esta purificação é descrita como um incêndio e nossas obras como materiais de construção diferentes. O que não é digno de estar na presença de Deus é queimado (como palha ou madeira), e o que é valioso e eterno (como ouro ou prata) não será consumido, mas refinado por este fogo purificador. Você pode encontrar imagens semelhantes em outras partes do Novo Testamento (veja 1Pedro 1, 7). Enquanto haverá um tipo de sofrimento ou "fogo", o fim último é a pessoa que será salva por ele.

Entender esta purificação da alma após a morte é a razão pela qual rezamos pelas santas almas. Rezar pelos mortos era uma prática que vemos no Antigo Testamento (2 Macabeus 12: 38-46; Eclesiástico 7, 33), que foi confirmada como uma crença e prática pelos primeiros seguidores de Jesus (ver os escritos de St. Efrém, São Cirilo de Jerusalém, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, entre outros).

Deixe-me propor três exercícios espirituais que podem resultar da nossa reflexão sobre o purgatório:

  1. Resolvamos aceitar o dom do perdão de Deus participando dos sacramentos, especialmente da Confissão, com mais frequência.
  2. Examinemos regularmente nossos apegos terrestres (o que retem nossas atenções, afeições e energia?). Eles são anexos saudáveis? Se não, crie um plano espiritual para afrouxar o laço deles em sua vida.
  3. Finalmente, dê às santas almas o dom de suas orações e obras plenas de graça para que elas sejam total e finalmente unidas a Deus.

Conceda-lhes, ó Senhor, o descanso eterno e resplandeça Vossa luz diante delas. Amém

Indo mais fundo

São João Paulo II ofereceu uma breve, mas bela, reflexão sobre o purgatório, durante uma de suas audiências públicas. Você pode encontrá-la aqui.

Para saber mais sobre o purgatório, acesse:

Original em inglês: Ascencion