Você Não É Mais Ímpio

14/01/2026

Os católicos dizem que Deus nos torna justos; os protestantes dizem que Ele apenas nos CHAMA de justos. Quem está certo?

A Igreja Católica ensina que o fundamento da nossa justificação — um termo teológico que geralmente se refere a um cristão em comunhão com Deus — é o nosso estado interior de santidade, que Deus estabelece em nós quando somos salvos. Como o Concílio de Trento ensinou, "não só seremos salvos, mas também assim Ele nos chama, e seremos participantes, cada um de nós, da Santidade" (Decreto sobre a Justificação, cap. 7, grifo nosso). O concílio esclarece ainda que "a justificação não é apenas a remissão dos pecados, mas também a santificação e a renovação do homem interior".

Em outras palavras, para um católico, Deus considera que um fiel está em paz com Ele — justificado — porque Ele, de forma livre e gratuita, por meio da fé e da caridade, trouxe um estado interior de justiça ao fiel. A justificação não se trata apenas de uma mudança no status legal, como acredita um católico; ela envolve uma mudança real dentro da pessoa.

Isso contrasta com a tradição reformada do protestantismo, que nega que nosso estado interior de santidade seja o fundamento da justificação. Nessa perspectiva, o que nos torna justos perante Deus é simplesmente Deus nos declarar justos, e não algo que Deus realmente faça dentro de nós.

Surge, então, a pergunta óbvia: qual visão está correta?

Existem muitas passagens bíblicas que, a meu ver, refutam a posição reformada e apoiam a visão católica.

Considere o que São Paulo escreve em Romanos 5, 6-11:

Quando ainda éramos fracos que Cristo, no tempo marcado, morreu pelos ímpios. — Dificilmente alguém dá a vida por um justo; por um homem de bem talvez haja alguém que se disponha a morrer. — Mas Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores.

Quanto mais, então, agora, justificados por seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Pois se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho, muito mais agora, uma vez reconciliados, seremos salvos por sua vida. E não é só. Mas nós nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem desde agora recebemos a reconciliação

A primeira coisa a notar é que Paulo aqui tem em vista a justificação. Apenas alguns versículos antes, ele escreve: "Tendo sido, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus" (v. 1).

Agora, observe como Paulo estrutura a questão. Ele justapõe o que chama de estado "ímpio", ou seja, ser "pecadores", com o estado de ter o amor de Deus derramado em nossos corações. Paulo descreve sua própria condição anterior e a dos cristãos romanos como um estado "ímpio" — um estado que envolvia pecado e impureza interior: "pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores". Este seria um estado em que a alma estava desprovida da graça santificante devido ao que a Tradição Católica chama de pecado mortal.

Mas eis a boa notícia. Paulo diz que ele e os cristãos romanos foram libertados desse estado de impureza porque, como ele mesmo afirma, "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (v. 5).

Essa expressão — "em nossos corações" — é crucial. Na Bíblia, o "coração" significa o âmago da pessoa. Por exemplo, Deus diz por meio do profeta Jeremias: "Eu, o Senhor, perscruto o coração, sondo os rins, para retribuir ao homem conforme o seu caminho, conforme o fruto de suas obras" (Jeremias 17,10). Da mesma forma, Jesus ensina em Marcos 7,20-23: "É de dentro, do coração dos homens que saem as intenções malignas ...Todas essas coisas más saem de dentro do homem e o torna impuro".

Portanto, para Paulo, o estado oposto a ser "ímpio" não é apenas uma mudança no status externo. É algo interior. E esse estado interior é ter o amor de Deus habitando em nós — um amor que nos torna verdadeiramente santos por dentro.

O que é especialmente interessante é que Paulo identifica esse mesmo estado interior como o estado de ser justificado. Novamente, ele reconhece no versículo 1 que ele e os cristãos romanos foram justificados. Mas ele contrasta explicitamente esse estado de justificação com o estado anterior deles de serem "ímpios".

Ele escreve nos versículos 7-8,

Dificilmente alguém dá a vida por um justo; por um homem de bem talvez haja alguém que se disponha a morrer. — Mas Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores.

Note o contraste entre ser "pecadores" e ser "justos". O argumento de Paulo é que, quando estavam em um estado ímpio e pecaminoso, eles não eram justos. A implicação é direta: como não estão mais nesse estado ímpio, agora são justos.

Portanto, para Paulo, o estado oposto à impiedade é o estado de justificação. E ele descreve esse mesmo estado como ter o amor de Deus em nossos corações. Isso mostra que Paulo entende a justificação como sendo constituída pelo amor de Deus habitando em nós. Visto que ter o amor de Deus em nós implica uma santidade interior, segue-se que Paulo concebe a justificação como envolvendo um estado interior de santidade.

No mínimo, isso refuta a alegação de que a justificação não envolve santidade interior. E, no que diz respeito ao ensinamento da Igreja, demonstra que nosso estado interior de santidade — ter a graça santificante em nossas almas (acompanhada pela caridade) — é, de fato, fundamento para nossa justificação. Demonstrar que é o único fundamento exigiria mais argumentos. Mas essa é uma discussão para outro momento.

Autor: Karlo Broussard

Original em inglês: Catholic Answers