Uma Sofisticada Desconstrução da Religião (e Nossa Humilde Resposta)

Escrito por Daniel Prieto

É um exercício louvável, sincero e profundo do intelecto reconhecer o que todas as boas e diferentes religiões contribuíram para a humanidade ao longo da história

No entanto, como disse um filósofo com simplicidade elegante, "A religião não surgiu da necessidade de garantir a solidariedade social, nem as catedrais construídas para incentivar o turismo" (Nicolas Gomez Davila). A religião não é uma projeção idealizada de aspirações humanas, nem é uma invenção criativa das narrativas para promover altruísmo e paz, e muito menos um negócio lucrativo para controlar as massas.

A religião é adoração. A religião é a expressão profunda de estupor e de reconhecimento daquele homem que se encontrou com Deus, quer ele o chame de Transcendente ou de Absoluto. E esse homem se prostra com temor reverencial porque sabe que diante daquele Mistério tremendo e fascinante pertence os céus, a terra, o tempo e o espaço. O homem se ajoelha, ora pedindo perdão, ora rezando ou esperando, como insinua a palavra religião: poder "religar" (unificar ou vincular novamente) o céu e a terra, mesmo que por um instante, para conciliar o homem com Deus e, ao fazê-lo, promover a paz, a unidade e a harmonia original da criação (se não agora, então na vida por vir).

No meio dessa experiência, uma série de verdades é revelada ao homem; verdades que dão forma ao seu caminho; um caminho percorrido na fidelidade pode levá-lo a essa vida de unidade e reconciliação que ele anseia (que todos desejamos). É assim que acontece. Dos cultos, regras e aproximações da vida da religião, brota uma visão muito além da nossa compreensão. Não o contrário. É por isso que, contrariamente ao que este vídeo nos diz, não somos (nem seremos capazes) de forjar a nossa própria, o que é gerado pelo transcendente. Nunca seremos capazes de substituir a religião. A questão da galinha ou do ovo não é válida. Aqui, o que é primeiro é fundamental, isto é, o que recebemos de cima. O que nos leva a reconhecer em cada homem um irmão ou irmã digno de respeito e amor incondicional, e isso inclui nossos inimigos. Não nasce de um acordo estipulado (mesmo que seja uma facilidade, eficiência ou mesmo a sobrevivência que estejam em jogo). Não. A ética de tamanha magnitude é uma resposta à revelação de um Deus que se revelou como um pai que nos ama incondicionalmente.

Nem mesmo com as nossas aspirações prometeicas ou com a força de nossa própria razão, lograremos deificar o que é iminente, revivendo aqueles titãs antigos (que na realidade ainda seguem vivos), aquelas "ideologias" (políticas, econômicas, etc.) que prometem construir um paraíso terrestre pela força de mãos visíveis e invisíveis, procurando destruir tudo o que esteja em seu caminho. Diante deles, teremos que curvar nossas cabeças, entregar nossa vontade. Sabemos bem onde essa história acaba.

Não podemos construir o mundo secular com substitutos de religião, isso não representa um desafio para os seres humanos, porque é simplesmente inalcançável. Esta é a estratégia da modernidade: não lute com a religião, basta esvaziá-la do seu significado e substituí-la. O humanismo sem transcendência é um humanismo anti-humano que, cedo ou tarde, constrói deuses humanos. Eles acabam lutando contra o próprio Homem. Devemos ter cuidado (como o vídeo finge fazer) para não ser seduzido pela crença de que nós podemos construir e igualar, nossa ética humana, os valores que provêm de Deus e dependem de Ele e dEle prescindir para alcançar a felicidade plena.

O Cristianismo, muito pelo contrário, não só professa uma revelação que vem do alto, mas também tem a escandalosa pretensão de afirmar que as verdades que são reveladas, o caminho a ser seguido e a verdadeira vida prometida convergem e se encarnam em Uma Pessoa Concreta. O evento singular que desafia toda lógica e imaginação humana, paradoxalmente, atribui a si próprio uma credibilidade particular. Isto é, que não se construiu e nem se inventou. A quem poderia ocorrer tamanha loucura? Quem em seu são juízo afirmaria que Deus poderia nos salvar com impotência; que Seu triunfo pressupõe o fracasso; que Seu amor é a Misericórdia que se torna Encarnada, desce e morre por todos nós, inimigos incluídos e, mais tarde, ressuscita para preencher a todos e tudo com Sua presença amorosa? "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14, 6). Isso não se inventa. É por isso que a vinda de Cristo dividiu a história em dois, e sua força foi transformante e será definitiva; não passará ... e não haverá volta para trás. Não precisamos inventar algo novo, precisamos ter um encontro com o Deus vivo.

Termino com uma citação do então Cardeal Joseph Ratzinger que levanta um ponto importante e resume o que é discutido acima. Em seu livro Introdução ao Cristianismo ele escreve:

"Frente à mensagem de amor do Novo Testamento, hoje se impõe cada vez mais uma tendência de identificar completamente o culto cristão com o amor fraterno, não se querendo admitir mais nenhum amor direto a Deus, nenhuma veneração de Deus: reconhece-se exclusivamente o horizontal, negando-se o vertical ou seja a relação imediata com Deus. Depois do que se disse, não será difícil perceber por que uma tal concepção - à primeira vista - de aparência tão simpática, falha na questão do Cristianismo, e com ela, no problema do autêntico humanismo. Um amor fraterno autossuficiente descambaria em egoísmo extremado de autoafirmação. Um tal amor recusa sua abertura última, sua tranquilidade, seu desprendimento, não aceitando a necessidade da salvação deste amor por intermédio do único que realmente amou bastante. Finalmente, um tal amor, apesar de toda a bem-querença, causa injustiça a si mesmo e ao outro, porque o homem não se realiza apenas na simpatia mútua do co-humanismo, mas somente na reciprocidade daquele amor desinteressado que glorifica o próprio Deus. O desinteresse da simples adoração representa a suprema possibilidade do humanismo e sua verdadeira e definitiva libertação."

Original em inglês: https://catholic-link.org/deconstruction-religion-response/