Um Guia Rápido Para Os Pecados Da Língua

13/05/2026

Existem muitas maneiras de pecar em nossa fala. Aqui estão algumas para ficarmos atentos.

"A língua, porém, nenhum homem a pode domar. É um mal irrequieto, cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos o Senhor, nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus" (Tiago 3,8-9).

Esta passagem resume perfeitamente as questões morais relacionadas à fala humana. Podemos chamar as multidões à conversão, como faz São Pedro no Pentecostes (Atos 2,14-42), ou podemos incitá-las à violência, à ignorância e ao mal.

No âmbito da fala pecaminosa, devemos começar lembrando que os pecados da língua não se restringem ao Oitavo Mandamento (não levantar falso testemunho). Frequentemente, eles afetam outros aspectos da vida moral. A fala com a intenção de causar dano muitas vezes viola o Quinto Mandamento (não matar); da mesma forma, a fala pode ser usada para incitar a luxúria (o Sexto e o Nono Mandamentos), a irreverência (o Primeiro e o Segundo Mandamentos) e a inveja ou o ciúme (o Décimo Mandamento). Em outras palavras, seria um grave erro agir como se a fala estivesse de alguma forma isenta de culpa moral. Talvez o maior pecado da língua em nossa época seja simplesmente a ideia de que a fala (especialmente a fala online) possa pairar livremente acima do conteúdo da moral cristã. Nosso Senhor é bastante claro sobre este ponto em Lucas 6,45: seja para o bem ou para o mal, "a boca fala daquilo de que o coração está cheio".

Nas abordagens tradicionais das virtudes, os pecados da língua geralmente se enquadram na categoria da justiça, que é o hábito de relações bem ordenadas. Vejamos, por sua vez, algumas das maneiras mais comuns pelas quais falhamos nesse aspecto.

Mentir

O Oitavo Mandamento, que proíbe "levantar falso testemunho", é geralmente interpretado pela tradição como uma declaração do nosso dever natural para com a veracidade. O Catecismo cita Santo Tomás de Aquino ao explicar por que a verdade é parte integrante da justiça natural: "Sendo o homem um animal social, naturalmente tem um homem os deveres para com outro sem os quais não pode a sociedade humana subsistir. Pois, os homens não poderiam conviver em sociedade se não acreditassem uns nas palavras· dos outros, como manifestativas da verdade do pensamento" (ST II-II, q109, ad1; ver CIC 2469).

Mentir é um pecado contra a verdade. Como outras virtudes, a verdade ou a veracidade situa-se entre o excesso e a deficiência. Versões "excessivas" e "deficientes" da veracidade são situacionais, porque algo não pode ser "excessivamente" verdadeiro ou falso. Mas, em determinada situação, podemos pecar contra a verdade (e a prudência) tanto compartilhando mais do que deveríamos, como dar meus últimos resultados de colesterol e os boletins escolares dos meus filhos para o cara sentado ao meu lado no metrô, quanto ficando em silêncio quando deveríamos falar, como não fazer uma observação que poderia evitar que alguém se machucasse.

O ensino católico insiste que mentir em si, que é dizer algo que sabemos ser falso, é sempre um pecado. Mas precisamos fazer duas ressalvas importantes a esse princípio. Primeiro, a linguagem figurativa ou metafórica não é mentira, porque a intenção é transmitir a verdade (ver ST II-II, q110, a3, ad6). Segundo, nem toda mentira é um pecado mortal.

Também não é mentir dizer algo que você acredita, erroneamente, ser verdade. Às vezes, essa é uma lição difícil de aprender! Quantas vezes meus filhos já me acusaram, ou acusaram seus irmãos, de "mentir" por causa de um erro inocente? Sim, posso ter dito que vocês poderiam tomar um sorvete de chocolate, mas acontece que não temos sorvete de chocolate. "Mas mentir", escreve o Pe. Gregory Pine em seu livro Training the Tongue (Treinando a Língua - sem tradução para o português), "é separar intencionalmente o conhecimento da fala. Um mentiroso diz algo como se fosse a verdade, quando sabe que não é.".

O maior fator moral na mentira é o seu objetivo. Por que você está mentindo? Qual é o propósito? Novamente, mentir em si nunca é lícito, mas alguns propósitos podem aumentar ou diminuir a culpabilidade moral. Os piores tipos de mentiras são aquelas com a intenção de causar dano. Menos malignas (novamente, isso não significa boas ou lícitas!) são aquelas direcionadas a algum bem (St. Tomás chama essas mentiras de "jocosas" ou "oficiais").

Blasfêmia vs. Irreverência

Frequentemente ouço pessoas confessarem ter cometido "blasfêmia" quando, na verdade, queriam dizer "Oh, meu Deus!" ou usar o nome de Jesus como exclamação. Da mesma forma, as pessoas se preocupam em consumir material "blasfemo", referindo-se a filmes ou programas que contenham esse tipo de discurso.

Acho que essa descrição é exagerada. No Catecismo, a blasfêmia é um ataque pessoal mais sério e intencional contra Deus ou as coisas de Deus. Muitas vezes, o discurso em questão é simplesmente irreverente ou descuidado. A irreverência ainda é um pecado, mas geralmente é menos grave do que a blasfêmia.

O Catecismo ressalta que "é também blasfematório recorrer ao nome de Deus para justificar práticas criminosas, reduzir povos à escravidão, torturar ou condenar à morte" (2148). Usar o nome de Deus para promover o mal é uma forma diferente de blasfêmia, distinta de amaldiçoar Deus verbalmente.

Discurso Contra Pessoas

A própria multiplicidade do vocabulário aqui já é, por si só, um testemunho das diversas maneiras pelas quais o pecado contra o próximo pode manifestar-se em nossa fala: bajulação, afronta, blasfêmia, insulto, difamação, calúnia, maledicência, intriga, zombaria, denegrimento, libelo, injúria. Não tentarei aqui definir todos esses termos! Eis as distinções que considero mais úteis de se ter em mente:

Difamação é o termo jurídico civil mais comum para designar a fala destinada a prejudicar outra pessoa ou sua reputação. Libelo é a difamação por escrito, e injúria é a difamação por palavras faladas. A tradição moral católica tende a usar aqui o termo "maledicência" em estreita relação com o conceito civil de difamação; a principal diferença é que a difamação é um conceito jurídico, enquanto a maledicência é um conceito moral.

As duas principais formas de maledicência são a calúnia e a detração. Ambas têm a intenção de ferir alguém ou sua reputação, mas a calúnia o faz por meio de uma falsidade conscientemente dita, ao passo que a detração o faz por meio de um uso desamoroso da verdade. Mais uma vez, Pe. Pine afirma:

"A detração não se vale da falsidade, mas ainda assim é pecaminosa porque mina injustamente a reputação do próximo. [...] Cada um de nós merece, por justiça, que sua reputação seja respeitada, e cada um de nós está obrigado, por justiça, a respeitar a reputação do próximo".

A linguagem áspera e a zombaria são termos morais. Raramente é ilegal (exceto talvez no universo interno dos sistemas de classificação de filmes e programas de TV) dizer algo puramente insultuoso ou grosseiro, mas isso certamente pode ser imoral. Não se trata tanto de que as próprias palavras (por exemplo, palavrões) sejam más em si mesmas enquanto emissão de sons ou sequência de letras, mas sim de que elas estão inseparavelmente ligadas ao seu contexto social.

A zombaria é o uso de linguagem áspera ou de maledicência com a intenção de ridicularizar ou envergonhar. Ela pode ser um recurso retórico eficaz para despertar sentimentos fortes sobre um assunto, e por isso pode tornar-se tentadora quando o objetivo é verdadeiro e digno — convencer as pessoas, por exemplo, a evitar algum mal. Sem dúvida, também é difícil, às vezes, distinguir entre verdadeira zombaria ou linguagem grosseira e a expressão de uma verdade que, em si mesma, é desagradável. Muitas vezes só podemos julgar verdadeiramente as nossas próprias intenções, e procurar, tanto quanto possível, regular a nossa fala segundo os padrões da caridade: quando dizemos algo duro ou desagradável, fazemos isso com o objetivo de expressar uma verdade que ilumine, edifique ou previna um dano, ou o fazemos com o propósito de humilhar ou desumanizar um adversário (ainda que esse adversário esteja promovendo algum grande mal!)?

Fofoca e a Era da Comunicação de Massa

Dos pecados listados acima, muitos se relacionam estreitamente com o termo moderno geral "fofoca". Se a fofoca se refere simplesmente a uma notícia excitante, provavelmente não se trata de matéria de pecado. Mas, se envolve contar a alguém algo sobre outra pessoa que ele não tem razão legítima para saber, é muito provável que seja pecado.

A internet criou um mundo em que as coisas raramente permanecem privadas. O que em outra época seria uma fofoca privada rapidamente se transforma em zombaria pública. Com uma praça pública maior, torna-se ainda mais fácil cair no pecado de ouvir esse tipo de fala pecaminosa e dar-lhe espaço implicitamente. A tecnologia acelerou o problema vislumbrado séculos atrás no Catecismo Romano, que advertia contra aqueles "que sentem um prazer maligno em semear discórdias".

Talvez devêssemos cunhar um novo termo para aqueles que conscientemente criam sistemas e algoritmos inteiros dedicados aos pecados da fala. Mas dar nome a esses males só pode ir até certo ponto. As virtudes da verdade e da reverência só podem desenvolver-se quando recusamos o canto de sereia do juízo temerário e do comentário instantâneo, lembrando-nos de que o propósito último da fala é, antes de tudo, o culto de Deus.

Autor: Pe. Samuel Keyes

Original em inglês: Catholic Answers


Nota:

(1) - Pe. Gregory Maria Pine, O.P. é um frade dominicano e teólogo americano. Pe. Gregary é instrutor de Teologia Dogmática e Moral na Dominican House of Studies e diretor assistente do Instituto Tomista.


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