Por Que O Evangelho De João Não Menciona A Instituição Da Eucaristia?

Ao final de nossa jornada quaresmal, todos os anos, na Missa da noite da Quinta-feira Santa, celebramos a instituição da Sagrada Eucaristia. Mas, para muitos de nós, a escolha da Igreja para a leitura do Evangelho nesta Missa pode parecer um pouco estranha.
Em vez de nos apresentar o relato de Mateus, Marcos ou Lucas sobre Jesus consagrando o pão e o vinho na Última Ceia, a Igreja nos convida a ler o único Evangelho que sequer menciona a instituição da Eucaristia: o Evangelho de João!
Isso levanta a questão mais ampla de por que exatamente João escolhe omitir esse evento crucial. Se os católicos estão certos sobre a Eucaristia, não deveria a sua instituição ser a última coisa que João omitiria?
Um Simbolismo Mais Profundo
Em seu excelente livro sobre a Eucaristia - sem tradução (baixar aqui) - Lawrence Feingold, aborda diretamente esta questão:
"Por que João não relata a instituição da Eucaristia? A explicação mais plausível é que ele estava interessado em complementar os evangelhos sinópticos, relatando coisas que eles omitiram. Portanto, ele acrescenta o Discurso do Pão da Vida e o lava-pés, mas omite a narrativa da instituição, já transmitida em quatro relatos [Mateus, Marcos, Lucas e Paulo]. Uma segunda razão complementar possível é que João escreveu mais tarde, época em que se considerava prudente manter um véu de segredo sobre o que há de mais sagrado na adoração cristã. Essa prática, conhecida como disciplina arcana, era comum na Igreja primitiva. ... A tendência de encobrir as coisas mais sagradas com um véu alusivo pode ter levado São João a falar da Eucaristia por meio da imagem do lava-pés dos discípulos, em vez de relatar diretamente a instituição da Eucaristia. Tudo o que é dito sobre o lava-pés também poderia ser dito sobre a Eucaristia" (The Eucharist, pág. 82-83).
Essa explicação nos ajuda a esclarecer o que a omissão da narrativa da instituição por João não significa: não se trata de João nos dizer que os sacramentos não importam. Se fosse esse o caso, a tentativa de João teria fracassado de forma espetacular, porque o capítulo 6 de seu Evangelho — o discurso do Pão da Vida — contém a passagem eucarística mais rica de todos os quatro Evangelhos.
Então, o que João está fazendo?
Feingold oferece duas explicações possíveis e não conflitantes. A segunda delas (afirmar que João omitiu as palavras da instituição para preservar o sigilo da liturgia da Igreja primitiva) é plausível, mas especulativa. Diante disso, a primeira explicação de Feingold parece ser a mais promissora.
Em geral, devemos ter cuidado para evitar afirmações excessivamente categóricas sobre o porquê de um evangelista em particular descrever ou não um determinado evento.
Embora João omita a instituição da Eucaristia e muitas outras coisas, ele também inclui muitos eventos que não aparecem nos evangelhos sinópticos. A ressurreição de Lázaro, por exemplo, é o maior dos sinais de Jesus, mas não é mencionada em Mateus, Marcos ou Lucas.
Por quê?
A resposta curta é que não sabemos, e por isso só nos resta especular.
Uma possível explicação é que os evangelistas sinópticos escreveram antes e, portanto, queriam proteger as identidades de Lázaro e suas irmãs das autoridades judaicas. João, por outro lado, pode ter escrito em um momento posterior, quando tinha mais liberdade para compartilhar os detalhes do que aconteceu.
Embora esse tipo de explicação prática possa ser válido em alguns casos, também devemos estar abertos a explicações mais teológicas, como as apresentadas por Feingold.
Essas explicações teológicas nos ajudam a perceber que, embora muitos eventos importantes nos Evangelhos sinópticos não apareçam em João, isso não significa que João os ignore completamente.
Há muito se observa, por exemplo, que não há exorcismos no Evangelho de João.
Em vez disso, João apresenta a Cruz como o exorcismo cósmico definitivo, por meio do qual "o príncipe deste mundo será expulso" (João 12,31). Ou ainda, João nunca menciona a Transfiguração, mas retrata a própria crucificação como a epifania culminante da glória Trinitária.
Diante disso, parece razoável supor que algo semelhante esteja acontecendo com a decisão de João de omitir a instituição da Eucaristia. João faz isso não para sugerir que a Eucaristia seja irrelevante, mas sim para nos convidar a refletir sobre ela de uma maneira mais profunda.
Ainda uma Ceia Pascal
Antes de desvendar esse simbolismo mais profundo, vale a pena abordar brevemente a questão muito debatida sobre se a Última Ceia, conforme descrita no Evangelho de João, é ou não uma ceia pascal.
Nos três Evangelhos sinópticos, a instituição da Eucaristia por Jesus é explicitamente apresentada como ocorrendo no contexto de uma ceia pascal (ver Mt 26,17-19; Mc 14,12, 14, 16; Lc 22,7, 8, 11, 13, 15).
Aqui, devemos lembrar que, na contagem judaica do tempo, um novo dia começa ao pôr do sol. Portanto, nos Evangelhos sinópticos, a preparação para a ceia pascal começa na tarde do dia 14 de Nisan, e a Última Ceia ocorre após o pôr do sol, que é o início do dia 15 de Nisan.
No Evangelho de João, porém, as coisas não são tão simples.
Como Feingold resume em seu livro, existem quatro argumentos principais que podem sugerir que a Última Ceia no Evangelho de João não é uma refeição pascal:
João 13,1-2 parece implicar que a Última Ceia ocorreu antes da Celebração da Páscoa. João 18,28 sugere que as autoridades judaicas iriam "comer a Páscoa" após a crucificação de Jesus, o que significa que a festa da Páscoa não pode ter ocorrido na noite anterior à morte de Jesus. João 19,14 descreve a data da crucificação de Jesus como "o dia da Preparação da Páscoa". Isso implica que Jesus foi crucificado na tarde do dia 14 de Nisan e que a Páscoa não começaria antes do pôr do sol.
Parece improvável que o Sinédrio pudesse ter se reunido para condenar Jesus se a festa da Páscoa já estivesse em andamento.
O que devemos concluir desses quatro argumentos?
Uma teoria apresentada por alguns estudiosos é que João simplesmente reorganizou os fatos históricos para enfatizar um ponto teológico. De acordo com essa teoria, João deliberadamente organiza os acontecimentos de modo que Jesus seja crucificado na tarde do dia 14 de Nisan. João faz isso porque quer apresentar Jesus realizando Seu sacrifício exatamente no mesmo momento em que milhares de cordeiros eram abatidos no Templo (e posteriormente levados para casa para serem consumidos como parte da festa da Páscoa).
Dessa forma, João destaca o papel de Jesus como o novo e eterno Cordeiro Pascal (falaremos mais sobre isso adiante!).
Embora essa teoria tenha algum apelo teológico, ela apresenta duas grandes desvantagens.
Ignora-se o fato de que, embora João nunca descreva explicitamente sua Última Ceia como uma refeição da Páscoa, ela inclui diversos elementos típicos de uma celebração pascal (por exemplo, a solenidade da ocasião, o fato de estarem reclinados à mesa, o fato de a refeição ocorrer à noite e o fato de mergulharem o pão em algum tipo de mistura). Mais importante ainda, devemos ser céticos em relação a qualquer teoria que afirme que um dos evangelistas tenha manipulado seriamente os fatos históricos.
Como, então, podemos reconciliar João com os sinópticos sobre a questão de se a Última Ceia foi uma refeição pascal?
Aqui, Feingold oferece diversas explicações possíveis.
Resumiremos simplesmente a explicação que ele considera mais plausível, a saber, que as diferenças entre João e os sinópticos representam apenas uma contradição aparente, e não real. Feingold demonstra que existe uma refutação convincente para cada um dos quatro argumentos apresentados contra a ideia de que a Última Ceia de João tenha sido uma refeição pascal.
O primeiro argumento relativo a João 13,1-2 não é um argumento forte porque, nas palavras de Feingold, «esta indicação cronológica pode muito bem referir-se diretamente à consciência de Jesus de que a Sua hora tinha chegado, e não à data da Última Ceia em si» (p. 92).
O segundo argumento, baseado em João 18,28, pode ser explicado pelo fato de que a expressão «comer a Páscoa» se referia não apenas ao consumo do cordeiro pascal no dia 15 de Nisan, mas também ao consumo de pão ázimo, que ocorria durante todos os sete dias da Páscoa (cf. Dt 16,2-3).
O terceiro argumento pode ser rapidamente esclarecido quando percebemos que o termo "dia da preparação da Páscoa" admite mais de um significado. Embora pareça para nós que se refira ao dia anterior à Páscoa, na terminologia judaica todas as sextas-feiras eram conhecidas como o dia da preparação (para o sábado). Portanto, é bem possível que João 19,14 esteja simplesmente se referindo à "sexta-feira que cai na semana da Páscoa".
Por fim, o quarto argumento não tem comprovação, e, na verdade, temos evidências históricas de que a lei judaica exigia que os falsos profetas fossem executados durante uma das principais festas de peregrinação (como a Páscoa) a fim de fazer deles um exemplo público.
Embora haja muito mais a dizer sobre esse assunto, as conclusões acima nos dão a certeza de que o Evangelho de João e os Evangelhos sinópticos não precisam ser interpretados como estando em contradição entre si.
Pode-se argumentar de forma plausível que tanto João quanto os sinópticos concordam que os discípulos de Jesus fizeram os preparativos para a Última Ceia na tarde do dia 14 de Nisan. Após o pôr do sol — no início do dia 15 de Nisan — Jesus e Seus discípulos iniciaram juntos a refeição da Páscoa. Mais tarde naquela noite, Jesus foi preso no Getsêmani e crucificado no dia seguinte.
Contemplando o Cordeiro de Deus
Fizemos um longo desvio exegético, mas agora é hora de reunir nossas reflexões.
João não menciona explicitamente a instituição da Eucaristia, mas seu relato da Última Ceia, e seu Evangelho como um todo, permanecem profundamente eucarísticos.
Em seu relato de Jesus lavando os pés dos discípulos, por exemplo, João nos oferece uma parábola em miniatura de todo o ministério de Jesus: Jesus tira Suas vestes (Encarnação/kenosis), lava nossa impureza (morte salvadora na Cruz), veste-Se novamente (Ressurreição) e retorna ao Seu lugar à mesa (Ascensão). Toda essa cena tem ricos tons eucarísticos: em vez de dizer "Este é o meu Corpo entregue por vós", Jesus nos mostra a entrega de Seu Corpo ao se ajoelhar e lavar os pés dos discípulos.
Ainda mais importante do que o lava-pés, porém, é o simbolismo abrangente de João de Jesus como o Cordeiro de Deus.
Como João Batista proclama logo no início do Evangelho: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" (João 1,29; cf. 1,36). Essa proclamação explícita encontra eco em outros detalhes do Evangelho de João, que se estrutura em torno de três festas da Páscoa distintas.
(Curiosamente, todas essas três Páscoas estão intimamente ligadas a cenas eucarísticas: a primeira ocorre imediatamente após as bodas de Caná; a segunda acontece na ocasião da alimentação dos cinco mil e do discurso sobre o Pão da Vida; a terceira tem lugar na ocasião da Última Ceia e da crucificação.)
Exemplos de imagens pascais incluem o fato de que nenhum dos ossos de Jesus foi quebrado na cruz, assim como nenhum dos ossos do cordeiro pascal deveria ser quebrado (ver João 19,33; cf. Êxodo 12,46).
João também relata como, na cruz, Jesus recebe vinho azedo em um ramo de hissopo, o mesmo utensílio usado para espalhar o sangue do cordeiro pascal nos umbrais das portas das casas (ver João 19,29; cf. Ex 12,22).
Por fim, João é o único dos quatro evangelistas a destacar o sangue e a água que jorram do lado de Cristo (ver João 19,34) — uma descrição que lembra fortemente o ritual da Páscoa, com sua ênfase no sangue salvador dos cordeiros e cabritos sacrificiais.
O resultado de tudo isso é que João nos convida a ler seu relato da Última Ceia à luz de seu Evangelho como um todo.
Quando fazemos isso, percebemos que João não considera a instituição da Eucaristia sem importância. Pelo contrário, ele a considera tão importante que deseja transmitir-nos a profunda importância do que significa contemplar Jesus como o novo e eterno Cordeiro Pascal, cujo Precioso Sangue nos redime da escravidão do pecado e da morte, e cujo Corpo devemos consumir na Celebração Eucarística.
Autor: Clement Harrold
Original em inglês: St. Paul Center