Os Eufemismos São Os Melhores Amigos Da Esquerda E Os Piores Inimigos Da Verdade

06 de abril de 2018 (LifeSiteNews) - Há uma razão pela qual ativistas do aborto e abortistas quase nunca utilizam a palavra "aborto", e, ao invés, optam por termos mais vagos e abstratos: saúde das mulheres, liberdade de escolha, direitos reprodutivos ou autonomia corporal. Esses termos são todos formas de se esquivar do verdadeiro ponto de discórdia no debate sobre o aborto. Enquanto puderem manter o debate em termos abstratos, os ativistas do aborto conseguem avançar, apresentando sua posição não como defensora da destruição física de um ser humano em desenvolvimento no útero, mas como uma lista de coisas que todo mundo aprecia, como escolha, liberdade e saúde.

Eu expliquei esta guerra de narrativa em detalhes em meu livro de 2017 Seeing is Believing: Why Our Culture Must Face the Victims of Abortion[1], que analisa o que acontece quando nós evitamos nos engajar no debate em termos de escolha e começamos a falar sobre o que está sendo escolhido. Em reação, alguns abortistas querem acabar com a palavra aborto e começar a se referir a esse procedimento apenas como "interrupção da gravidez". Um artigo de 2017 no British Medical Journal of Sexual and Reproductive Health descreveu como essa expressão foi "recentemente adotada por várias instituições médicas britânicas como um descritor preferido de aborto induzido." E por que? "A estigmatização em curso do aborto pode influenciar."

De fato, um questionário citado no artigo indicou que 28% dos entrevistados acharam a palavra "aborto" como "angustiante", e muitos profissionais do aborto descobriram que o termo causava desconforto em seus pacientes. A palavra "aborto", apesar do fato de que é em si uma espécie de eufemismo para o que na verdade é um horrível feticídio, ainda é muito chocante para as consciências sobressaltadas daqueles que buscam se livrar de seus filhos e, portanto, algo mais suave, como " interrupção da gravidez ", poderia ser usado em seu lugar.

Isso indica uma verdade que os conservadores deveriam já ter percebido: quando os debates permanecem no reino da abstração, os esquerdistas vencem. Mas quando respondemos especificando o que estamos falando, de repente o debate se transforma. Aqui em Ontário, por exemplo, um comentaristas de esquerda estavam fazendo chacota da candidata líder do Progressive Conservative[i], Tanya Granic Allen, que passou anos fazendo campanha contra a educação sexual radical da Premier Kathleen Wynne. Termos sem sentido como "moderna" e "progressista" foram utilizados com insistência para favorecer a Premier, com implicação óbvia de enquadrar Granic Allen e seus partidários como não-modernos e, provavelmente, bem retrógrados.

Mas aí, Granic Allen surpreendeu a todos: em debates e entrevistas, ela calmamente passou a argumentar de forma específica. Eu escutei uma entrevista dela no CBC no meu caminho de casa para o trabalho de carro, e a ouvi perguntar ao anfitrião se ele se sentiria bem se sua filha fosse instruída a levar por toda parte preservativos, sem nunca ser dito a ela que amor e sexo deveriam estar juntos. A resposta do anfitrião indicou uma percepção tímida de sua parte que talvez as objeções de muitos pais ao currículo de educação sexual fossem, afinal, razoáveis. Quando Granic Allen se tornou específica, rapidamente o currículo da educação sexual passou a ser muito mais difícil de ser defendido.

Isso também é verdade no debate em torno do suicídio assistido - uma expressão, vocês notarão, que não está mais em voga. Como Blaise Alleyne e eu descrevemos em nosso livro How To Discuss Assisted Suicide[3], a maioria das pessoas ainda tem uma reação instintivamente negativa à palavra "suicídio". Para a maioria das pessoas, o termo suicídio ainda carrega conotações fundamentalmente trágicas. E assim, os ativistas do suicídio começaram a reformular seus argumentos, tomando muito emprestado dos ativistas do aborto. Eles começaram a falar sobre "escolha", "autonomia corporal" e "cuidados no fim da vida", ao mesmo tempo em que vão arquivando o termo "suicídio" por completo. Agora, o termo oficial é Medical Aid in Dying[4], que é encurtado para o inofensivo acrônimo MAiD. Isso não soa assim tão mal, não é?

Mas novamente, quando ao invés somo nós que forçamos um debate sobre suicídio, o debate muda. As abstrações permitem que os abortistas finjam que seu "procedimento de término" não é o desmembramento físico de um minúsculo ser humano, que os políticos esquerdistas finjam que sua "educação sexual moderna" não está promovendo apenas uma cultura do encontro para adolescentes e que os ativistas do suicídio finjam que matar alguém é saúde. Quando permitimos que eles usem essas abstrações, nós abrimos espaço para que eles lancem uma cortina de fumaça e vendam ao público sua agenda em meio a eufemismos escorregadios. Quando damos nome aos bois e os forçamos a defender o que eles realmente promovem - então o debate muda. Já é hora de começarmos a fazer isso.

Texto de Jonathon Van Maren

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Notas:

[1] Ver é Acreditar: Por que Nossa Cultura Deve Encarar as Vítimas do Aborto

[2] Partido político de centro-direita em Ontário, Canadá.

[3] Como Discutir o Suicídio Assistido

[4] Assistência Médica ao Morrer. No Brasil o suicídio assistido está no âmbito de uma ampla discussão intitulada de "Morte Digna", que inclui ainda a eutanásia.