Maria E O Dom Da Maternidade

20/01/2026

A maternidade é uma dom extraordinária que só as mulheres possuem. No entanto, muitos foram condicionados a vê-la como um fardo, um obstáculo à ascensão profissional ou até mesmo uma doença a ser evitada a todo custo por meio da esterilização, contracepção e aborto.

Se levamos a sério a restauração da dignidade da mulher no mundo atual, devemos começar por redescobrir a beleza da maternidade. E não há melhor maneira de fazê-lo do que olhar para Nossa Senhora, a quem as Sagradas Escrituras exaltam como a mãe de Deus, a mãe da Igreja e a mais alta honra da humanidade.

Mãe de Deus

Em 431 d.C., o Concílio de Éfeso proclamou Maria como Theotokos. Este título é uma junção de duas palavras gregas: Theos, que significa "Deus", e tokos, que significa algo como "aquela que dá à luz" ou "aquela que traz à luz". Theotokos, portanto, designa Maria como aquela que deu à luz a Deus, e geralmente é traduzido para o português como "mãe de Deus" ou "portadora de Deus".

A identificação de Maria como a mãe de Deus decorre diretamente do dogma da Santíssima Trindade: Jesus é Deus; Maria é a mãe de Jesus; portanto, Maria é a mãe de Deus.

Este notável mistério também está implícito nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas. Se observarmos o uso do título "Senhor" (kyrios em grego) por São Lucas, as dez primeiras ocorrências referem-se claramente a Deus:

  • "Ambos eram justos diante de Deus, caminhando irrepreensìvelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor". (Lucas 1,6)
  • "segundo o costume do sacerdócio, tocou-lhe por sorte entrar no templo do Senhor a oferecer o incenso". (Lucas 1,9)
  • "Apareceu-lhe um anjo do Senhor, posto de pé ao lado direito do altar do incenso". (Lucas 1,11)
  • "porque ele será grande diante do Senhor". (Lucas 1,15)
  • "E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus". (Lucas 1,16)
  • "para preparar ao Senhor um povo bem disposto". (Lucas 1,17)
  • "Isto é uma graça que me fez o Senhor nos dias em que me olhou" (Lucas 1,25)
  • "Entrando o anjo onde ela estava, disse-Ihe: "Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo.'". (Lucas 1,28)
  • "e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David". (Lucas 1,32)
  • "Então Maria disse: 'Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim a tua palavra.'". (Lucas 1,38)


Lucas fixa firmemente na mente do leitor que Deus é o Senhor. Mas observe como Isabel saúda Maria na visitação: "Donde a mim esta dita, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?" (Lucas 1,43). A saudação de Isabel parece afirmar Maria como a mãe de Deus!

Agora, um cético poderia argumentar que kyrios também pode se referir simplesmente a um mestre humano, e de fato, é usado dessa forma em várias ocasiões posteriores no Evangelho de Lucas. Embora isso seja certamente correto, o fato é que, em sua narrativa da infância de Jesus, Lucas parece estar destacando a surpreendente verdade de que o divino Senhor entrou no ventre de uma humilde jovem de Nazaré.

Se analisarmos os 16 usos restantes de kyrios nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas, constatamos novamente que o título quase sempre se refere explicitamente a Deus (ver Lucas 1,45, 46, 58, 66, 68, 76; 2,9a, 9b, 15, 22, 23a, 23b, 24, 26, 39). O único versículo ambíguo é Lucas 2,11: "Nasceu-vos hoje na cidade de David um Salvador, que é o Cristo, o Senhor".

Embora seja possível que este versículo esteja simplesmente identificando Jesus como uma importante figura real, isso parece improvável. Dos 27 usos de kyrios nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas, 25 se referem explicitamente a Deus. Parece mais provável, portanto, que 2,11 esteja deliberadamente proclamando Jesus como uma figura divina, enquanto a saudação de Isabel em 1,43 esteja reconhecendo Maria como a santa mãe de Deus.

Mãe da Igreja

Uma leitura orante das Escrituras revela que Maria não é apenas a mãe biológica do divino Redentor, mas também a mãe espiritual de todos os cristãos. Vemos isso no relato da Paixão de São João:

"Junto à cruz de Jesus estavam sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, vendo sua Mãe, e, junto dela, o discípulo que amava, disse a sua Mãe: "Mulher, eis o teu filho." Depois disse ao discípulo: "Eis a tua Mãe." E, desta hora por diante, a levou o discípulo para sua casa". (João 19,25–27)

É difícil de acreditar que a única preocupação de Jesus nesta passagem seja cuidar dos últimos detalhes logísticos antes de sua morte, como se ele tivesse se esquecido de deixar seu testamento antes de ser preso. Essa é uma observação feita pelo eminente estudioso bíblico Raymond Brown em seu famoso Comentário ao Evangelho de João:

Duvidamos que a solicitude filial de Jesus seja o principal significado da cena joanina. Tal interpretação não teológica tornaria este episódio deslocado em meio aos episódios altamente simbólicos que o cercam na narrativa da crucificação. Além disso, o Evangelho dá várias indicações de que algo mais profundo está em questão. ... Um significado mais profundo também é sugerido pelo versículo que se segue a este episódio em João: "Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado". A ação de Jesus em relação à sua mãe e ao Discípulo Amado completa a obra que o Pai lhe confiou e cumpre as Escrituras. (Comentário ao Evangelho de João)

Brown observa corretamente que o Evangelho oferece vários indícios de que algo mais profundo está acontecendo. O primeiro deles é o fato de o Evangelho de João nunca se referir a Maria ou ao discípulo amado por seus nomes próprios. Maria é conhecida simplesmente como a mãe de Jesus; quanto ao discípulo amado, ele tem sido tradicionalmente identificado como João, filho de Zebedeu (o mesmo João que escreveu o Evangelho), mas nunca é explicitamente nomeado como tal.

Um efeito dessa técnica literária é que tanto Maria quanto o discípulo amado assumem um papel mais universal no quarto Evangelho. O discípulo amado não é simplesmente João, filho de Zebedeu; ele representa aquilo que todo leitor do Evangelho é chamado a se tornar, ou seja, alguém que permanece no amor de Cristo (ver João 15,9; cf. 13,23).

Algo semelhante pode ser dito sobre Maria quando prestamos atenção à lógica interna do Evangelho de João. Mais do que qualquer outro evangelista, João enquadra a vida cristã como o processo de tornar-se alter Christus, ipse Christus — "outro Cristo, o próprio Cristo" (ver, por exemplo, João 6,56; 14,20; 15,4-5).

Se dermos ouvidos ao que João nos diz, logo descobriremos que o discipulo amado consiste em tornar-se um com Jesus. Mas, sendo assim, a decisão de João de se referir exclusivamente a Maria como "a mãe de Jesus" adquire uma ressonância completamente nova. Essa nomenclatura simbólica torna-se um convite a ver Maria como nossa própria mãe espiritual, precisamente porque seu Filho nos fez membros de Seu próprio corpo místico.

Já no século III (por volta de 225 d.C.), o grande exegeta bíblico Orígenes endossou essa interpretação:

Podemos, portanto, ousar dizer que os Evangelhos são os primeiros frutos de todas as Escrituras, mas que, entre os Evangelhos, o de João é o primeiro fruto. Ninguém pode compreender o seu significado, a menos que tenha repousado no peito de Jesus e recebido de Jesus Maria como sua mãe também. É assim que deve ser aquele que quer ser outro João... Não é verdade que todo aquele que é perfeito já não vive mais para si mesmo, mas Cristo vive nele [ver Gal 2, 20]; e se Cristo vive nele, então é dito a ele por Maria: "Eis aí o teu filho Cristo" (Comentário sobre João, 1, 6).

Orígenes nos ensina que, como o discípulo amado, devemos ter como objetivo nos tornarmos cada vez mais semelhantes a Cristo. Quando fazemos isso, começamos a entender por que foi tão importante para Jesus nos dar Sua mãe, mesmo quando Ele estava com dificuldade para respirar na cruz; Ele a deu a nós para que pudéssemos aprender com seu exemplo e nos beneficiar de seu cuidado materno.

"E, desta hora por diante, a levou o discípulo para sua casa (eis ta idia)". A expressão grega usada aqui significa, mais literalmente, "para a sua própria casa". É uma lembrança do significado universal dessa ação. O discipulo amado não se trata apenas de João, filho de Zebedeu, acolhendo Maria em sua casa; trata-se de todos nós a acolhermos em nossos próprios corações e vidas.

E isso faz sentido porque, como nos lembra o livro do Apocalipse, todo cristão é filho de Maria: "O Dragão irou-se contra a Mulher e foi fazer guerra aos outros seus descendentes, que guardam os mandamentos de Deus e retêm a confissão de Jesus Cristo" (Ap 12,17).

A Maior Honra de Nossa Raça

Quando a Missa é celebrada na Festa de Nossa Senhora de Guadalupe (12 de dezembro), o Salmo Responsorial é retirado do livro de Judite. O refrão, recitado pela congregação, é uma paráfrase de Judite 15,9: "Tu és a grande honra de nossa raça!".

A Igreja reconhece essas palavras como profeticamente apontando para Nossa Senhora. Ao recitá-las na liturgia, somos convidados a refletir novamente sobre o mistério radical de Deus tomar como mãe uma mulher judia pobre e simples.

Em seu livro Domínio - Como o Cristianismo Transformou o Pensamento Ocidental - Conversor de EPUB para PDF -, o historiador secular Tom Holland captura algo da grandeza desse mistério:

Nenhum ser humano recebera tamanha honra; nenhum ser humano fora tão exaltado. … "Ó ventre, ó carne, em quem e de quem o criador foi criado, e Deus se fez encarnado." A mãe virgem que redimiu a falta de Eva, a mortal que concebeu em seu útero a infinitude atemporal do divino, Maria podia personificar, mesmo para o mais humilde e iletrado camponês, todos os inúmeros paradoxos que jaziam no âmago da fé cristã. … Consagrado no próprio âmago dos grandes mistérios elucidados pelo cristianismo, do nascimento e da morte, da felicidade e do sofrimento, da comunhão e da perda, estava o amor de uma mulher por seu filho. (p. 167)

Num mundo que se esqueceu de como honrar as mulheres enquanto mulheres, Maria permanece como um testemunho eterno de que a maternidade não é um problema a ser resolvido, mas sim um dom profundo por meio do qual Deus escolheu redimir o mundo.

Autor: Clement Harrold

Original em inglês: St. Paul Center