Jesus Era Judeu

08/07/2026

Esse fato pode passar despercebido pelo leitor casual do Novo Testamento, mas não devemos esquecê-lo.

Jesus era judeu.

Deixe-me fazer algumas perguntas. Você nasceu e foi criado em Israel? Estudou a Torá com os rabinos desde muito cedo? Já percorreu as colinas rochosas e os caminhos empoeirados para celebrar as festas obrigatórias em Jerusalém? Fala hebraico, grego e aramaico? Sem esse contexto, estamos em grande desvantagem ao estudar a Bíblia e seu personagem central.

Ao abrirmos as páginas de nossas Bíblias, encontramos um livro judaico! São Paulo escreveu: "Principalmente porque lhes (aos judeus) foram confiados os oráculos de Deus" (Rm 3,2). Israel, os judeus e a adoração a YHWH constituem o pano de fundo das Escrituras. Mais de quarenta autores, que escreveram setenta e três livros, compõem as páginas sagradas. Com uma única exceção, todos eram judeus. (Você sabe quem foi o único autor não judeu da Bíblia? Vou lhe dar algumas dicas: ele era médico e um dos colaboradores de Paulo, e escreveu a primeira história da Igreja.) A questão é: como podemos compreender a Bíblia e os ensinamentos sobre nosso Senhor Jesus, a salvação e a Igreja sem compreender o seu povo, a sua história, a sua cultura e a sua identidade judaica?

David H. Stern, um judeu messiânico, escreve:

A expiação vicária do Messias tem suas raízes no sistema sacrificial judaico; a Ceia do Senhor fundamenta-se nas tradições da Páscoa judaica; o batismo é uma prática judaica; e, de fato, todo o Novo Testamento está edificado sobre a Bíblia Hebraica — com suas profecias e a promessa de uma Nova Aliança —, de modo que o Novo Testamento sem o Antigo é tão impossível quanto o segundo andar de uma casa sem o primeiro.

Além disso, grande parte do que está escrito no Novo Testamento é incompreensível se não for considerado à luz do judaísmo (62).

O cristianismo brota de raízes judaicas. O estudo da Bíblia ganha vida quando a brisa fresca da compreensão judaica sopra sobre as suas páginas.

É difícil colher todos os benefícios de uma história sem mergulhar no seu mundo e no seu "espírito". Por exemplo, como podemos realmente apreciar o romance histórico E o Vento Levou sem compreender a Guerra Civil e o estilo de vida do Sul dos Estados Unidos? Ninguém começa um romance pelo meio; caso contrário, perderia o contexto, tornando impossível apreciar plenamente o cenário, o enredo, a atmosfera e os personagens.

Tomemos um exemplo caro ao coração de qualquer católico. São Mateus registra palavras profundas trocadas entre Jesus e Simão, o pescador. Ele chega a mudar o nome do discípulo, de "Simão" para "Pedra" — o que, na tradição judaica, significa uma mudança de função ou de *status*. Para nós, ocidentais, separados por dois mil anos e sem compreender o significado semítico de um nome, isso significa pouco. Mas, para o grupo de discípulos de Jesus, descendentes de Abraão, a mudança de nome foi algo profundo — um divisor de águas. O próprio Abraão recebera de Deus uma mudança de nome, correspondente à aliança do Antigo Testamento. O nome de Abrão (que significa "pai") foi mudado para Abraão (que significa "pai de nações"), simbolizando o novo *status* de Abraão diante de Deus. Estabelecia-se, assim, um povo da aliança.

Da mesma forma, a mudança de nome de Simão foi significativa. Um ouvinte do primeiro século perceberia imediatamente algo que escapa à maioria dos leitores de língua portuguesa. O nome Pedro é uma versão em português da palavra grega *Petros* (pedra/rocha). Mas em aramaico, a língua que Jesus falava, a palavra para "pedra" era *kēphas*. É por isso que encontramos Simão sendo chamado tanto de Pedro quanto de Cefas ao longo do Novo Testamento (por exemplo, João 1,42; 1 Coríntios 15,5; Gálatas 1,18). Ninguém além de Deus (e Abraão) havia sido chamado anteriormente de "pedra/rocha". Abraão era a rocha da qual os judeus haviam sido talhados (Isaías 51,1). Mas Deus era o único a possuir o nome de Rocha (Deuteronômio 32:4). Pedro agora compartilha esse título e esse nome. O que um judeu pensaria a respeito de tal nome atribuído a um simples homem?

Outro exemplo notável da necessidade de compreender o contexto judaico da Bíblia provém da mesma passagem. Considere Mateus 16,19, que menciona as "chaves do Reino". Em parte devido ao desconhecimento da cultura judaica, o significado dessa passagem é frequentemente minimizado, reduzindo-se as "chaves do Reino" meramente à pregação de Pedro no Pentecostes, que, como se costuma dizer, "abriu as portas do céu". Muitos protestantes cometem esse erro ao tentar compreender a passagem sem captar o seu pano de fundo judaico. O que as "chaves do Reino" representavam para os povos semitas que ouviram Jesus pessoalmente? O que significava essa entrega das chaves, feita pelo Rei Jesus a Pedro, que acabara de receber esse nome?

O hebreu comum estava intimamente familiarizado com as Escrituras. Os fariseus tinham grandes partes do Antigo Testamento memorizadas — se não todo o Tanakh. Quando Jesus disse a Pedro que ele receberia as "chaves do Reino dos Céus", os judeus imediatamente remetiam o pensamento à estrutura governamental da época em que Israel era um reino. Isaías 22 descrevia o cargo monárquico do administrador real, que governava "sobre a casa" do rei. Leia Isaías 22,22, reflita sobre o cargo real de administrador e descubra o contexto governamental por trás das palavras de Jesus.

Esse foi um anúncio profundo para Simão e para o restante dos Doze que primeiro creram em Yeshua, o Messias. Ele logo se assentaria no trono de seu pai Davi e receberia um reino eterno (Dn 7,13-14; Lc 1,26-33; At 7,56). Quando o novo rei é entronizado, não se espera que ele nomeie seu administrador real? Aleluia! Simão recebe o novo nome de Pedra e é investido de autoridade sobre o reino mediante a entrega das chaves para governar o domínio do Rei Jesus. Ah, os judeus compreenderam!

Durante o Holocausto nazista, para demonstrar solidariedade ao povo judeu, o Papa Pio XI associou nossa fé católica à fé de nosso pai Abraão. Ele declarou: "Espiritualmente, somos semitas". Posteriormente, o Concílio Vaticano II afirmou, na Nostra Aetate, que "os judeus continuam ainda, por causa dos patriarcas, a ser muito amados de Deus, cujos dons e vocação não conhecem arrependimento". Nós, gentios, somos ramos de oliveira selvagem enxertados na oliveira de Israel (Rm 11,17-24). Paulo diz que judeu é o que é interiormente (Rm 2, 29) e que a Igreja é o "Israel de Deus" (Gl 6,16). Segundo Paulo, todos nós somos semitas, todos nós somos judeus.

Como disse o Papa João Paulo II na Grande Sinagoga de Roma: "Com o judaísmo, portanto, temos uma relação que não temos com nenhuma outra religião. Vós sois nossos irmãos muito amados e, de certa forma, pode-se dizer que sois nossos irmãos mais velhos".

Essa relação singular deve nos inspirar a aprofundar nosso conhecimento das Escrituras, de seu contexto e do mundo do povo judeu. A Igreja está enraizada no judaísmo; as Escrituras e a Igreja são organicamente judaicas.

Que o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó nos ilumine e nos conceda valorizar nossos irmãos mais velhos, nossa herança judaica, nosso Messias judeu e a Palavra de Deus contida nas Sagradas Escrituras.

Autor: Steve Ray

Original em inglês: Catholic Answers

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