Ele Fez As Crianças Não Nascidas Pouco Menos Que Os Anjos

Os seres humanos são especiais. Embora praticamente todos ainda reconheçam essa verdade, a sociedade secular tem cada vez mais dificuldade em explicar por que isso é verdade.
É claro que os seres humanos possuem uma inteligência excepcional. Nossa racionalidade, combinada com nossa destreza física, nos permite nos tornarmos grandes artistas, artesãos, engenheiros e muito mais.
Mas e os muitos seres humanos que apresentam deficiências nessas áreas, como bebês, pessoas com deficiência e idosos? O que torna um embrião de quatro semanas ou um paciente com demência tão especiais quanto Elon Musk ou Usain Bolt?
A Base para a Dignidade Humana
Para o secularista moderno, a única resposta real às perguntas anteriores é "nada", razão pela qual nossa sociedade adota cada vez mais uma abordagem de dois níveis para a dignidade humana:
Nível 1: seres humanos saudáveis que já nasceram Nível 2: crianças não nascidas (especialmente aquelas com deficiências); seres humanos que enfrentam doenças físicas ou mentais incuráveis e debilitantes
Na prática, nenhum desses níveis é estanque. Por exemplo, se um ser humano do nível 2 for especialmente valorizado ou desejado por um ser humano do nível 1, então ele poderá ser elevado(a) ao nível 1. Quando uma celebridade famosa decide ser mãe, por exemplo, seu filho não nascido é celebrado e protegido. Mas se a mesma celebridade conceber uma criança acidentalmente e decidir fazer um aborto, então seu filho não nascido permanece definitivamente no nível 2.
A desumanização também pode ocorrer na direção oposta. Em tempos de guerra, por exemplo, seres humanos que normalmente seriam tratados como de primeira classe podem ser relegados à segunda. Afinal, é difícil mutilar, torturar ou matar alguém que você considera plenamente humano; muito mais fácil considerá-lo subumano e, então, fazer com ele o que bem entender.
Compare tudo isso com a visão bíblica da humanidade. O Salmo 8 nos convida a maravilhar-nos com a notável dignidade que Deus concedeu aos seres humanos: "Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes" (8,6). O salmista pode afirmar isso com confiança porque sabe que, de todas as criaturas da Terra, somente os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus (ver Gn 1,27; cf. 9,6).
Disso decorre que a dignidade humana não se baseia em características mutáveis como força, poder, saúde ou inteligência. Em vez disso, a dignidade humana se baseia no fato imutável de que todo ser humano é feito à imagem de Deus. Na prática, este é o único princípio que garante os direitos dos mais vulneráveis entre nós.
De uma perspectiva cristã, o embrião no útero, assim como Elon Musk, é uma pessoa humana com uma alma imortal destinada a glorificar a Deus e a residir com Ele em perfeita felicidade para sempre. Simplesmente em virtude de sua concepção, até mesmo a menor criança ainda não nascida foi feita para ser pouco menos que os anjos.
A Santidade da Fraqueza
Uma consequência importante de uma antropologia verdadeiramente bíblica é que os cristãos se comprometem a construir um mundo onde o poder esteja a serviço dos mais fracos (cf. Mc 9,33-35). Alguém que chegou a perceber isso por meio de suas reflexões sobre a Virgem Maria foi o notável historiador irlandês William Lecky (1838-1903). Embora não fosse uma pessoa de fé, Lecky reconheceu o enorme significado cultural de demonstrar devoção a Nossa Senhora:
O mundo é regido por seus ideais, e raramente houve um que tenha exercido uma influência mais profunda e salutar do que a concepção medieval da Santíssima Virgem. Pela primeira vez, a mulher foi elevada à sua posição de direito, e a santidade da fragilidade foi reconhecida, assim como a santidade da dor. Não mais escrava ou brinquedo do homem, não mais associada apenas a ideias de degradação e sensualidade, a mulher ascendeu, na pessoa da Virgem Mãe, a uma nova esfera e tornou-se objeto de uma reverência que a Antiguidade não concebia.
Em praticamente todas as culturas pré-cristãs, tanto as mulheres quanto as crianças eram consideradas menos dignas e valiosas do que os homens adultos. Como os homens são fisicamente mais fortes, presumia-se que a sociedade deveria girar em torno deles.
Quando o cristianismo surgiu, desafiou essas suposições. Era uma religião que se esforçava para exaltar a condição dos pobres e oprimidos: "Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes" (Lucas 1,52). Desde os seus primórdios, o cristianismo defendeu os membros mais fracos e vulneráveis da sociedade, incluindo os nascituros.
O aborto sempre foi a antítese da mensagem do Evangelho, precisamente porque incorpora tão claramente a dominação dos fortes em detrimento dos fracos. De fato, o aborto pega nosso instinto filantrópico mais fundamental — o amor de uma mãe por seu filho — e cria uma inversão horrenda, na qual o ser humano mais frágil e dependente que se possa imaginar passa a ser classificado como um parasita que merece ser exterminado violentamente pelos próprios adultos que deveriam amá-lo mais do que ninguém.
Tal barbárie é diametralmente oposta ao cristianismo. Enquanto o nosso mundo incentiva adultos egoístas a viverem como bem entenderem, mesmo à custa dos seus próprios filhos, os Evangelhos ensinam-nos a imitar o Deus do universo, que tanto desejou redimir as suas criaturas insignificantes que se ajoelhou para lavar-lhes os pés antes de subir à cruz para as salvar dos seus pecados.
Sacrifício de Crianças e Justiça Divina
O teólogo suíço Hans Urs von Balthasar observou certa vez: "Em qualquer lugar fora do cristianismo, a criança é automaticamente a primeira a ser sacrificada". Certamente, esse era o caso no mundo pré-cristão, onde não apenas o sacrifício de crianças, mas também o abandono e outras formas de infanticídio eram comuns. Repetidamente, o Antigo Testamento se insurge contra essas "práticas abomináveis" e adverte sobre a iminente justiça de Deus (ver Dt 18,9-13; 2Rs 17,15-17; Sl 105,34-39; Sb 12,3-7; Ez 20,30-32).
Contudo, a arrepiante máxima de Balthasar também se aplica à nossa sociedade pós-cristã. Em vez de massacrarmos nossos filhos diante de ídolos esculpidos, hoje os massacramos longe dos olhos do público, na sala de cirurgia estéril de uma clínica de aborto. O aborto, além disso, é apenas a mais hedionda das muitas maneiras pelas quais nossa cultura sacrifica crianças no altar da conveniência.
Através da proliferação da pornografia, sacrificamos a inocência das crianças; através da cultura do divórcio sem culpa, sacrificamos sua vida familiar, a integridade de seu lar e seu senso inato de estabilidade e pertencimento; através da fertilização in vitro e da barriga de aluguel, sacrificamos seu relacionamento com sua própria mãe ou pai; através da loucura da propaganda LGBT, sacrificamos sua autoidentidade; e através da ideologia materialista secular, negamos a elas o dom mais precioso que qualquer ser humano pode possuir: a amizade com Deus e a certeza de ser amado por Ele.
Cada um desses crimes carrega a marca do "homicida desde o princípio" (João 8,44), que busca em todas as épocas a destruição da família e o holocausto de crianças. Foi ele quem incitou o Faraó a matar os bebês hebreus do sexo masculino; foi ele quem levou Herodes a massacrar os meninos de Belém; e é ele quem está por trás da exploração generalizada de crianças em nossos dias.
Aqueles que cooperam com os planos de Moloque compartilharão seu destino em breve. Para cada um de nós, o dia se aproxima em que Deus nos chamará para prestar contas de tudo o que fizemos aqui na Terra. O falecido congressista americano Henry Hyde certa vez refletiu sobre o que esse acerto de contas final implicará:
Quando chegar a hora, como certamente chegará, quando enfrentarmos aquele momento terrível, o julgamento final, muitas vezes pensei, como escreveu Fulton Sheen, que será um momento de terrível solidão. Você não terá ninguém para te defender, estará sozinho diante de Deus — e um terror dilacerará sua alma como nada que você possa imaginar. Mas eu realmente acredito que aqueles que participam do movimento pró-vida não estarão sozinhos. Creio que haverá um coro de vozes nunca ouvidas neste mundo, mas que serão ouvidas de forma bela e clara no outro mundo — e elas intercederão por todos que estiveram neste movimento. Dirão a Deus: "Poupa-o, porque ele nos amou!"
Todos nós nos sentiremos espiritualmente nus quando estivermos diante do nosso Criador. Nesse momento, perceberemos o amor especial que Deus tem por todos os Seus pequeninos, a quem devemos imitar se quisermos entrar no Reino dos Céus (ver Mt 18,3). E talvez vejamos também com mais clareza do que agora as maneiras ocultas pelas quais as crianças, nascidas e não nascidas, oferecem ao Pai Eterno um hino eterno de louvor angelical: "Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus. Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde vossos adversários, e reduz ao silêncio vossos inimigos" (Sl 8,1-2).
Autor: Clement Harrold
Original em inglês: St. Paul Center