Como Anjos E Demônios Podem Lutar Se Não Têm Corpos?

Como anjos e demônios são espíritos puros, eles não podem sofrer danos físicos. Isso significa que anjos e demônios não lutam entre si da mesma forma que as criaturas materiais. Em vez disso, seu combate assume uma forma diferente.
Uma Guerra no Céu
No início da criação, todos os anjos estavam unidos no serviço a Deus. Mas chegou um tempo em que Lúcifer, o mais elevado de todos os anjos, nutriu ressentimento contra Deus. A tradição católica sustenta que esse ressentimento surgiu quando Lúcifer percebeu o plano de Deus para a humanidade e o papel que os seres humanos, e em particular Nossa Senhora, estavam destinados a desempenhar como a glória suprema de toda a criação.
Em vez de servir uma camponesa de Nazaré, Lúcifer escolheu rebelar-se contra o seu Criador. No Antigo Testamento, encontramos diversos textos que são interpretados pelos Padres da Igreja como descrevendo, em termos místicos, o orgulho e a subsequente queda de Lúcifer (ver Isaías 14,12-15; Ezequiel 28,12-17). No Novo Testamento, o livro do Apocalipse sugere que um terço dos anjos se uniu a Lúcifer em sua revolta, o que causou uma guerra civil no céu.
Apareceu então outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas; sua cauda arrastava um terço das estrelas do céu, lançando-aspara a terra. O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho, tão logo nascesse. … Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada — foi expulso para a terra, e seusAnjos foram expulsos com ele (Ap 12,3-4,7-9).
Aqui vemos o dragão, que representa Lúcifer, sendo derrotado por São Miguel e seus anjos.
Mas como uma batalha como essa poderia ocorrer entre criaturas espirituais incapazes de ferir ou matar umas às outras fisicamente? O exorcista Pe. José Antonio Fortea oferece algumas reflexões úteis sobre essa questão:
Como seres puramente espirituais podem lutar entre si? Que armas usam? Anjos são espíritos, portanto suas batalhas devem ser puramente intelectuais. As únicas armas que podem usar são argumentos intelectuais. Os anjos apresentaram razões aos rebeldes para que retornassem à obediência a Deus. Os anjos rebeldes, por sua vez, contra-atacaram com seus argumentos para sustentar sua posição e disseminar sua rebelião entre os anjos fiéis. Nessa épica batalha angelical, alguns que estavam inclinados à rebeldia retornaram à obediência, enquanto alguns dos anjos fiéis foram seduzidos pelos argumentos malignos dos rebeldes.
Mas nem todos [os anjos rebeldes] sofrem as mesmas dores. Alguns anjos foram mais deformados do que outros na batalha. Os mais deformados sofrem mais; os menos deformados sofrem menos. O intelecto dos anjos rebeldes foi distorcido e obscurecido pelas próprias razões que usaram para justificar a rebelião de suas vontades contra Deus.
Isso nos ajuda a perceber que a batalha primordial entre os anjos caídos liderados por Lúcifer — também conhecido como Satanás, que significa "adversário" ou "acusador" — e os anjos santos liderados por São Miguel foi uma batalha que envolveu intelecto e espírito, e não carne e sangue.
Combate Angélico
Como os anjos são espíritos puros, suas vontades estão agora voltadas para servir a Deus ou odiá-lo; não há possibilidade de um anjo santo trair a Deus, ou de um anjo caído se arrepender de seus maus caminhos. Mas isso significa que os anjos santos e os anjos caídos não têm mais nada pelo que lutar?
Não tão rápido! Embora as realidades da guerra espiritual sejam misteriosas e complexas, as Sagradas Escrituras sugerem fortemente que os anjos santos e os anjos caídos (ou demônios, como são popularmente conhecidos) continuam a se envolver em várias formas de combate. Um exemplo disso está em Judas 9, que relembra uma tradição judaica sobre o arcanjo Miguel "lutando" com o diabo em uma disputa pelo corpo de Moisés. Curiosamente, a arma escolhida por Miguel nessa ocasião é uma simples oração: "Que o próprio Senhor te repreenda!".
Outro exemplo bíblico do que parece ser uma batalha angelical encontra-se em Daniel 10,13: "O Príncipe do reino da Pérsia me resistiu durante vinte e um dias, mas Miguel, um dos primeiros Príncipes, veio em meu auxílio. Eu o deixei afrontando os reis da Pérsia." O narrador neste versículo é um anjo, que explica a Daniel como foi resistido durante vinte e um dias pelo príncipe do reino da Pérsia.
Diversos Padres da Igreja identificam esse príncipe como um demônio, o que está de acordo com a descrição de São Paulo dos demônios como "príncipes deste mundo " (1Cor 2,8). Neste caso, parece que um demônio foi designado por Satanás ao reino da Pérsia para supervisionar sua destruição espiritual. Além disso, esse demônio parece ter sido mais poderoso do que o anjo que apareceu a Daniel; tanto que o anjo foi forçado a pedir ajuda a São Miguel.
Como já mencionado, é importante admitirmos um certo grau de mistério em nossa interpretação desses textos bíblicos. Deste lado do véu, não compreendemos completamente as maneiras pelas quais seres incorpóreos, como anjos e demônios, lutam entre si. Mas isso não significa que a guerra espiritual seja um completo mistério!
Pelo contrário, ainda há muito que podemos dizer sobre as formas como anjos e demônios lutam entre si. Isso é particularmente verdadeiro na medida em que seu combate espiritual se relaciona com a nossa própria salvação. Pois, embora anjos e demônios não estejam mais travando uma batalha por seus próprios destinos eternos, eles ainda estão muito envolvidos na guerra milenar pelo destino eterno de toda a humanidade.
A Batalha pelas Almas
A tradição católica afirma que todos os anjos foram criados para servir como administradores e ministros do mundo criado. Como tal, tanto anjos quanto demônios exercem certa influência sobre a realidade material.
Embora anjos e demônios não tenham acesso direto às faculdades superiores do intelecto ou da vontade humana, eles podem nos ajudar ou atrapalhar em nossas faculdades inferiores: em nossos corpos, nossa imaginação e nossa memória. O teólogo inglês Pe. John Saward explica:
Anjos - santos ou caídos - atuando fora da vontade humana, podem alterá-la por meio da persuasão, ou seja, mostrando-nos o bem criado em sua amabilidade e atratividade. Assim, por exemplo, o anjo da guarda de um homem pode despertar a lembrança de sua mãe para dissuadi-lo de um ato que a escandalizaria. Anjos - santos ou caídos - podem provocar mudanças na vontade ao despertar as paixões: a compaixão pelo pobre homem no caminho de Jericó leva o samaritano ao ato de caridade. Mesmo assim, não há nada de determinista no despertar angelical de nossos sentimentos; temos o poder de resistir. (World Invisible: The Catholic Doctrine of the Angels, pag. 103)
Ao influenciarem nossas faculdades inferiores, os anjos e os demônios usam sua inteligência fenomenal para guiar nosso intelecto, persuadir nossa vontade e moldar nossa imaginação. Os anjos fazem isso para nos ajudar no caminho da salvação; os demônios fazem isso para nos arrastar para o inferno.
Santo Tomás de Aquino, a quem a Igreja celebra como o Doutor Angélico, fala belamente sobre o papel que os bons anjos desempenham ao nos guiar no caminho para o céu:
Ora, é manifesto, que o conhecimento e os afetos do homem podem, em relação às coisas que ele deve fazer multiplicemente variar e falhar, quanto ao bem. E por isso é necessário sejam delegados anjos para a guarda dos homens, que os rejam e movam para o bem (ST I.113.1).
Quando se trata do agir é claro que o conhecimento e o sentimento do homem podem variar de muitos modos e assim se afastar do bem. Daí a necessidade de se delegarem anjos para a guarda dos
Seguindo as palavras de Nosso Senhor em Mateus 18,10, Santo Tomás estende essa lógica para mostrar como a cada um de nós é dado um anjo da guarda para nos proteger ao longo da vida:
O homem, na vida presente, encontra-se em uma espécie de caminho que deve tender para a pátria. Nesse caminho são muitos os perigos que o ameaçam, dentro e fora: "No caminho pelo qual eu ando, armaram-me uma cilada", diz o Salmo 142 (141),4. Por isso, aos homens que andam por caminhos não seguros são dados guardas. Assim também a cada homem em sua peregrinação terrestre é delegado um anjo para sua guarda (ST I.113.4).
A doutrina católica sustenta que todos nós recebemos a proteção constante de nosso próprio anjo da guarda, bem como o auxílio de todas as hostes celestiais sempre que as invocamos:
Pois em teu favor ele ordenou aos seus anjos
que te guardem em teus caminhos todos.
Eles te levarão em suas mãos,
para que teus pés não tropecem numa pedra;
poderás caminhar sobre o leão e a víbora,
pisarás o leãozinho e o dragão (Sl 91,11-13).
No Antigo Testamento, o profeta Eliseu recebeu uma demonstração dramática do poder angelical, numa experiência que a Igreja há muito interpreta como a representação de uma enorme batalha espiritual:
Na manhã seguinte, o homem de Deus, saindo fora, viu o exército que cercava a cidade com cavalos e carros. Seu servo disse-lhe: "Ai, meu senhor! Que vamos fazer agora?". "Não temas – respondeu Eliseu –, os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles". Orou Eliseu e disse: "Senhor, abri-lhe os olhos, para que veja". O Senhor abriu os olhos do servo e este viu o monte cheio de cavalos e carros de fogo ao redor de Eliseu (2Rs 6,15-17).
Se alguma vez nos sentirmos amedrontados por Satanás e seus demônios, devemos nos lembrar da confiança de Eliseu em seus protetores celestiais: "Não temas, os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles".
Como os Demônios nos Atacam
A maneira comum pela qual os demônios nos atacam é tentando nos levar ao pecado. Santo Tomás fala da "maldade dos demônios, que por inveja se esforçam para impedir o progresso dos homens" (ST I.114.1). É por causa dessa inveja que o diabo, juntamente com seus asseclas, "sempre tenta para prejudicar, impelindo ao pecado" (ST I.114.2). Além disso, ao tentar nos ferir, o diabo muitas vezes busca descobrir a "condição interior do homem para tentá-lo no vício para o qual está mais inclinado" (ST I.114.2.ad2).
Para entendermos o papel que o diabo e seus representantes desempenham em nossas vidas, é importante lembrarmos que, mesmo após a vinda de Cristo, os anjos caídos ainda mantêm um alto grau de poder e autoridade no mundo material. Esse poder e autoridade são fortalecidos pela pecaminosidade humana, que continuamente amplia o domínio de Satanás no mundo. Cada vez que cometemos um pecado — especialmente um pecado mortal — entregamos uma parte de nossa alma à influência dos demônios.
Jesus nos adverte sobre esse efeito escravizante do pecado: ""Em verdade, em verdade, vos digo: quem comete o pecado é escravo" (João 8,34). A primeira epístola de João vai ainda mais longe: "Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio". O versículo acrescenta: "Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo" (1Jo 3,8).
Quando o livro da Sabedoria explica por que a morte entrou no mundo, ele se refere à morte espiritual experimentada por aqueles que fazem parte do reino de Satanás:
Ora, Deus criou o homem para a imortalidade,
e o fez à imagem de sua própria natureza.
É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo,
e os que pertencem ao demônio a provarão (Sb 2,23-24).
Santo Tomás esclarece que, embora nem todos os pecados sejam instigados pelo demônio (alguns são instigados pelo mundo ou pela carne), todo pecado nos liga ao demônio de alguma forma:
Se alguns pecados são cometidos sem a instigação do diabo, contudo por meio deles os homens se tomam filhos do diabo, pelo fato de imitarem aquele que por primeiro pecou (ST I.114.3.ad2).
Curiosamente, Santo Tomás também observa que, embora existam algumas ações más que não são instigadas pelos demônios, todas as boas ações são de alguma forma apoiadas pelo ministério dos anjos:
O homem pode por si mesmo cair em pecado, mas não pode chegar a ter merecimento sem o auxílio divino, a ele proporcionado pela mediação dos anjos. Por isso, os anjos colaboram em tudo o que fazemos de bom, enquanto- todos os nossos pecados não procedem da sugestão do demônio (ST I.114.3.ad3).
Deus estabeleceu o mundo de tal forma que os anjos desempenham um papel indispensável na mediação de Suas graças para o resto da criação.
Como os Anjos nos Protegem
Agora estamos em uma posição melhor para entender como anjos e demônios lutam entre si, apesar de não possuírem corpos físicos. Quando Lúcifer liderou sua revolta contra Deus, os anjos lutaram entre si usando argumentos intelectuais. Desde então, a guerra angelical tem consistido, em grande parte, na luta pelo destino eterno dos seres humanos.
Em vez de trocarem mísseis como os modernos estados-nação, anjos e demônios lutam constantemente pelas almas dos homens. Movidos pela inveja, os demônios odeiam os seres humanos; odeiam nossa fraqueza e falta de inteligência, e o quanto somos amados por Deus. Fazem tudo ao seu alcance para nos levar ao pecado; e quanto mais cooperamos com seus esforços, mais poder eles ganham sobre nossas almas.
Mas os ataques dos demônios não ficam sem resposta. Contra as forças das trevas se erguem as forças da luz: São Miguel e seus batalhões de santos anjos que trabalham dia e noite pela salvação de nós, pecadores.
Embora os santos anjos não lutem contra os demônios em combate corpo a corpo ou algo do gênero, eles os combatem de pelo menos três maneiras:
- Eles suplicam a Deus que repreenda os demônios e restrinja seu poder no mundo;
- Eles nos inspiram, iluminam e encorajam a nos afastarmos do pecado e a nos aproximarmos da santidade;
- Eles intercedem incansavelmente a Deus para que nos envie graças adicionais que nos auxiliem em nossa peregrinação terrena.
Aos santos anjos, portanto, devemos uma profunda gratidão. Mais do que isso, devemos-lhes nossa cooperação ativa, bem como nosso reconhecimento sóbrio da guerra espiritual perene que se trava ao nosso redor. Pois, nessa luta cósmica de vida e morte pelo destino eterno de cada ser humano, são nossas almas o campo de batalha.
Autor: Clement Harrold
Original em inglês: St. Paul Center