Como A História Do Dilúvio É Recontada Na Cruz

24/10/2021

Na crucificação, a história do julgamento de Deus em uma terra pecaminosa é reescrita de forma dramática.

A Tradição da Igreja identifica a cruz de madeira com a arca que salvou Noé, sua família e uma parte da criação do dilúvio no Gênesis (como contado em Gênesis 7. Se a arca é recapitulada, por assim dizer, na cruz, então naturalmente nos perguntamos onde está o outro elemento físico importante da história, a água?

Isso, é claro, entra na história na perfuração do lado de Cristo, quando o sangue e a água jorram.

A relação entre a madeira e a água é redefinida no Gólgota.

No dilúvio, as águas engoliram toda a terra, com a arca, por mais gigante que fosse, era apenas uma partícula em comparação. No entanto, na crucificação, a madeira - o símbolo da salvação - agora domina a cena.

No Gênesis, as águas são uma fonte de morte. Elas ameaçam a arca, que deve ser delas protegida. Mas, no Evangelho de João, a água que jorra do lado de Cristo é vivificante, simbolizando as águas do batismo. A relação entre a madeira e a água é positiva. Uma leva à outra.

Por meio da crucificação, o simbolismo da água é transformado de julgamento em misericórdia.

Ou, dito de outra forma, na pessoa de Cristo, o julgamento de Deus se torna misericordioso para conosco. Como Santo Tomás de Aquino escreve, na Summa Theologica: "Na justificação do ímpio manifesta-se a justiça, perdoando as culpas por causa do amor".

Com base nas informações que recebemos, a arca foi fechada sobre si mesma. Havia uma abertura para a luz (Gênesis 6, 16). A única outra abertura era a porta lateral, que, na Cidade de Deus, Agostinho liga ao lado de Cristo: "A porta aberta no costado da arca significa, sem dúvida, o ferimento aberto pela lança, ao atravessar o lado do crucificado."

Exceto que há uma diferença fundamental: em Gênesis, Deus "fecha" a porta depois que Noé, sua família e as criaturas entram (Gênesis 7,16). Na cruz, Deus finalmente 'abre' o lado.

Deus abriu o mundo para nós. Graças à cruz, estamos equipados com tudo o que precisamos para conquistar o mundo. Não precisamos mais temer as tempestades deste mundo. "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." (João 16, 33).

Deus abriu o paraíso para nós. A arca de Noé era uma espécie de Éden flutuante. Comparado com a morte e a destruição que dominavam fora de suas paredes, era um oásis com vida.

Deus Se abriu para nós. Claro, o que Deus fez no final das contas foi nos convidar a compartilhar Seu ser. O Antigo Testamento era um mundo de paredes e limites. Adão e Eva foram excluídos do Jardim. O Mar Vermelho separou os israelitas dos egípcios. E então eles próprios partem para a Terra Prometida. Um conjunto rígido de regras estabelecia limites ao redor do tabernáculo e, posteriormente, do templo no antigo Israel.

Um motivo dominante do Novo Testamento, por outro lado, é o cruzamento de fronteiras. Deus ultrapassa as fronteiras que separam o céu da terra. Ele cruza o abismo do pecado que separava o Homem de Deus. E, finalmente, Deus cruza a barreira que separa a vida da morte.

O significado final da conexão entre o dilúvio e a crucificação é a esperança. Se Deus pode pegar os elementos da história do dilúvio e retrabalhá-los em instrumentos de salvação oferecidos a todos, então há verdadeira esperança. A redenção de Deus é tão grande que Ele não apenas nos redime do dilúvio, mas também "redime" as águas do dilúvio, transformando-as no próprio instrumento de nossa redenção.

Original em inglês: Catholic Exchange