“Cai a Tarde e o Dia Já Declina”

Cardeal Sarah se ajoelha diante do Santíssimo Sacramento em Toronto (Universidade de St Michael's College)
Cardeal Sarah se ajoelha diante do Santíssimo Sacramento em Toronto (Universidade de St Michael's College)

O Cardeal Robert Sarah está publicando o terceiro livro de suas entrevistas com Nicolas Diat: "Cai a Tarde e o Dia Já Declina"[1]. Um diagnóstico inflexível, mas cheio de esperança em meio à crise espiritual e moral do Ocidente.

1) Na primeira parte do seu livro, o senhor descreve "um colapso espiritual e religioso". Como esse colapso se manifesta? Isso afeta apenas o Ocidente ou outras regiões do mundo, como a África, também são afetadas?

A crise espiritual envolve o mundo inteiro. Mas a sua fonte está na Europa. As pessoas no Ocidente são culpadas de rejeitar a Deus. Elas não apenas rejeitaram a Deus. Friedrich Nietzsche, que pode ser considerado o porta-voz do Ocidente, afirmou: "Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos ..." Nós assassinamos a Deus. Em vista da morte de Deus entre os homens, Nietzsche o substituiria por um profeta "Super-homem".

O colapso espiritual, portanto, tem um caráter muito ocidental. Em particular, gostaria de enfatizar a rejeição da paternidade. Nossos contemporâneos estão convencidos de que, para ser livre, não se deve depender de ninguém. Há um erro trágico nisso. Os ocidentais estão convencidos de que receber é contrário à dignidade das pessoas humanas. Mas o homem civilizado é fundamentalmente um herdeiro, ele recebe uma história, uma cultura, uma língua, um nome, uma família. Isso é o que o distingue do bárbaro. Recusar-se a inscrever-se dentro de uma rede de dependência, de herança e de filiação nos condena a voltar nus à selva de uma economia competitiva deixada à própria sorte. Por se recusar a reconhecer a si mesmo como herdeiro, o homem é condenado ao inferno da globalização liberal em que interesses individuais se confrontam sem qualquer lei para governá-los com vistas ao lucro a qualquer preço.

Neste livro, no entanto, quero sugerir ao povo ocidental que a verdadeira causa dessa recusa em reivindicar sua herança e essa recusa da paternidade é a rejeição de Deus. Dele recebemos nossa natureza como homem e como mulher. Isso é intolerável para as mentes modernas. A ideologia de gênero é uma recusa luciferiana de receber uma natureza sexual de Deus. Assim, alguns se rebelam contra Deus e se mutilam inutilmente para mudar seu sexo. Mas, na realidade, eles não mudam fundamentalmente nada de sua estrutura como homem ou mulher. O Ocidente se recusa a receber e aceitará apenas o que ele mesmo constrói. O transumanismo[2] é o avatar final desse movimento. Por ser um dom de Deus, a própria natureza humana se torna insuportável para o homem ocidental.

Esta revolta é espiritual na raiz. É a revolta de Satanás contra o dom da graça. Fundamentalmente, acredito que o homem ocidental se recusa a ser salvo pela misericórdia de Deus. Ele se recusa a receber a salvação, querendo construí-la para si mesmo. Os "valores fundamentais" promovidos pela ONU são baseados em uma rejeição de Deus que eu comparo com o jovem rico no Evangelho. Deus olhou para o Ocidente e o amou porque fez coisas maravilhosas. Ele o convidou para ir mais longe, mas o Ocidente voltou atrás. Preferia aquelas riquezas que só devia a si mesmo.

A África e a Ásia ainda não estão totalmente contaminadas pela ideologia de gênero, pelo transumanismo ou pelo ódio à paternidade. Mas o espírito neocolonialista das potências ocidentais e a vontade de dominar, pressionam os países a adotarem essas ideologias mortais.

2) O senhor escreve que "Cristo nunca prometeu aos seus fiéis que eles seriam a maioria" (pg. 34), e o senhor prossegue: "Apesar dos maiores esforços dos missionários, a Igreja nunca dominou o mundo. A missão da Igreja é uma missão de amor e o amor não domina "(p. 35). Anteriormente, o senhor escreveu que "é o 'pequeno remanescente' que salvou a fé". Se o senhor me perdoa, uma pergunta ousada: qual é exatamente o problema, visto que esse "pequeno remanescente" existe de fato atualmente e consegue sobreviver mesmo em um mundo hostil à fé?

Os cristãos devem ser missionários. Eles não podem guardar o tesouro da Fé para si mesmos. Missão e evangelização continuam sendo uma tarefa espiritual urgente. E como diz São Paulo, todo cristão deveria poder dizer: "Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!" (1Cor 9,16). Além disso, "Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade." (1Tim 2, 4). Como podemos não fazer nada quando tantas almas não conhecem a única verdade que nos liberta: Jesus Cristo? O relativismo predominante considera o pluralismo religioso um bem em si mesmo. Não! A plenitude da verdade revelada que a Igreja Católica recebeu deve ser transmitida, proclamada e pregada.

O objetivo da evangelização não é a dominação mundial, mas o serviço de Deus. Não se esqueça de que a vitória de Cristo sobre o mundo é ... a Cruz! Não é nossa intenção tomar o poder do mundo. A evangelização é feita por meio da Cruz.

Os mártires são os primeiros missionários. Ante aos olhos dos homens, sua vida é um fracasso. O objetivo da evangelização não é "contabilizar" como as redes de mídia social que querem "fazer alarde". Nosso objetivo não é ser popular na mídia. Queremos que cada alma seja salva por Cristo. Evangelização não é uma questão de sucesso. É uma realidade profundamente interior e sobrenatural.

3) Gostaria de voltar a um dos seus pontos na pergunta anterior. O senhor quer dizer que a cristandade europeia, onde o Cristianismo foi capaz de se estabelecer por toda a sociedade, era apenas uma espécie de interlúdio na história; que não deve ser tomado como modelo no sentido de que na Europa o Cristianismo "dominou" e se impôs através de uma espécie de coerção social?

Uma sociedade permeada pela fé, o Evangelho e a lei natural é algo desejável. É tarefa dos fiéis leigos construí-la. Esta é, de fato, a sua própria vocação. Eles trabalham pelo bem de todos quando constroem uma cidade em conformidade com a natureza humana e aberta à Revelação. Mas o objetivo mais profundo da Igreja não é construir um modelo específico de sociedade específica. A Igreja recebeu o mandato para proclamar a salvação, que é uma realidade sobrenatural. Uma sociedade justa dispõe as almas para receber o dom de Deus, mas não pode dar a salvação. Por outro lado, pode haver uma sociedade justa e em conformidade com a lei natural, sem o dom da graça operando nas almas? Há uma grande necessidade de proclamar o coração de nossa fé: somente Jesus nos salva do pecado. Deve ser enfatizado, no entanto, que a evangelização não está completa quando se apodera das estruturas sociais. Uma sociedade inspirada pelo Evangelho protege os fracos contra as consequências do pecado. Por outro lado, uma sociedade isolada de Deus rapidamente se transforma em uma ditadura e se torna uma estrutura de pecado, encorajando as pessoas para o mal. É por isso que podemos dizer que não pode haver sociedade justa sem um lugar para Deus na esfera pública. Um Estado que oficialmente defende o ateísmo é um Estado injusto. Um Estado que relega Deus à esfera privada se exclui da verdadeira fonte de direitos e justiça. Um Estado que pretende fundar direitos somente baseados em boa vontade, e que não busca fundamentar a lei em uma ordem objetiva recebida do Criador, corre o risco de cair no totalitarismo.

4) Ao longo da história europeia, nós nos movemos de uma sociedade na qual o grupo superou a pessoa (o holismo da Idade Média) - um tipo de sociedade que ainda existe na África e continua a caracterizar o Islã - para uma sociedade na qual a pessoa é emancipada do grupo (individualismo). Poderíamos também dizer, em linhas gerais, que passamos de uma sociedade dominada pela busca da verdade por uma sociedade dominada pela busca da liberdade. A própria Igreja desenvolveu sua doutrina em face desta evolução, proclamando o direito à liberdade religiosa no Vaticano II. Como o senhor vê a posição da Igreja em relação a essa evolução? Existe um equilíbrio a ser alcançado entre os dois polos "verdade" e "liberdade", enquanto que até agora nós apenas passamos de um extremo para outro?

Não é correto falar de um "equilíbrio" entre dois polos: verdade e liberdade. Na verdade, esse modo de falar pressupõe que essas realidades sejam externas e opostas umas às outras. A liberdade é essencialmente uma tendência para o que é bom e verdadeiro. A verdade é para ser conhecida e livremente abraçada. Uma liberdade que não é orientada e guiada pela verdade é sem sentido. Erro não tem direitos. O Vaticano II recordou o fato de que a verdade só pode ser estabelecida pela força da própria verdade, e não pela coerção. Lembrou também que o respeito pelas pessoas e sua liberdade não deve nos tornar indiferentes em relação ao verdadeiro e ao bem.

A revelação é o irromper da verdade divina em nossas vidas. Não nos constrange. Ao dar e revelar a si mesmo, Deus respeita a liberdade que Ele mesmo criou. Acredito que a oposição entre verdade e liberdade é fruto de uma falsa concepção de dignidade humana.

O homem moderno hipostatiza[3] sua liberdade, tornando-a absoluta ao ponto de acreditar que ela é ameaçada quando aceita a verdade. No entanto, aceitar a verdade é o mais belo ato de liberdade que o Homem pode realizar. Acredito que a sua pergunta revela quão profundamente a crise da consciência ocidental é realmente uma crise de fé. O homem ocidental tem medo de perder sua liberdade aceitando o dom da fé verdadeira. Ele prefere se fechar dentro de uma liberdade que é desprovida de conteúdo. O ato de fé é um encontro entre liberdade e verdade. É por isso que, no primeiro capítulo do meu livro, insisti na crise da fé. Nossa liberdade se realiza quando diz "sim" à verdade revelada. Se a liberdade diz "não" a Deus, ela se nega. Ela se asfixia.

5) O senhor insiste sobre a crise do sacerdócio e defende o celibato sacerdotal. O que o senhor vê como a causa primária nos casos de abuso sexual de menores por padres, e o que o senhor acha da cúpula que acabou de acontecer em Roma sobre essa questão?

Eu creio que a crise do sacerdócio é um dos principais fatores na crise da Igreja. Nós tiramos a identidade dos padres. Nós fizemos os sacerdotes acreditarem que eles precisam ser homens eficientes. Mas um padre é fundamentalmente a continuação da presença de Cristo entre nós. Ele não deve ser definido pelo que ele faz, mas pelo que ele é: ipse Christus, o Próprio Cristo. A descoberta de muitos casos de abuso sexual contra menores revela uma profunda crise espiritual, uma ruptura grave, profunda e trágica entre o padre e Cristo.

É claro que existem fatores sociais: a crise dos anos 60 e a sexualização da sociedade, que repercutem na Igreja. Mas devemos ter a coragem de ir mais longe. As raízes dessa crise são espirituais. Um padre que não reza ou faz um pouco dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, um padre que só raramente se confessa e que não vive concretamente como outro Cristo, está separado da fonte de seu próprio ser. O resultado é a morte. Eu dediquei este livro aos sacerdotes de todo o mundo porque sei que eles estão sofrendo. Muitos deles se sentem abandonados.

Nós, os bispos, temos uma grande parcela de responsabilidade pela crise do sacerdócio. Nós fomos pais para eles? Nós os ouvimos, os entendemos e os orientamos? Nós lhes demos exemplo? Demasiadas vezes as dioceses são transformadas em estruturas administrativas. Existem incontáveis reuniões. O bispo deve ser o modelo do sacerdócio. Mas nós mesmos estamos longe de ser os mais preparados para rezar em silêncio, ou para cantar o Ofício em nossas catedrais. Temo que nos percamos em responsabilidades secundárias e profanas.

O lugar de um padre é a Cruz. Quando ele celebra a Missa, ele está na fonte de toda a sua vida, ou seja, a Cruz. O celibato é um meio concreto que nos permite viver este mistério da Cruz em nossas vidas. O celibato inscreve a Cruz em nossa própria carne. É por isso que o celibato é intolerável para o mundo moderno. O celibato é um escândalo para as pessoas modernas, porque a Cruz é um escândalo.

Neste livro, quero incentivar os padres. Quero dizer-lhes: amem o seu sacerdócio! Tenham orgulho de serem crucificados com Cristo! Não tenham medo do ódio do mundo! Quero expressar meu afeto como pai e irmão para com os sacerdotes do mundo inteiro.

6) Em um livro que causou bastante agitação [No Armário do Vaticano, por Frédéric Martel], o autor explica que há muitos prelados homossexuais no Vaticano. Ele dá credibilidade à denúncia de Mons. Viganò da influência de uma poderosa rede gay no coração da Cúria. O que o senhor acha disso? Existe um problema homossexual no coração da Igreja e, em caso afirmativo, por que é um tabu?

Hoje a Igreja está vivendo com Cristo os ultrajes da Paixão. Os pecados de seus membros voltam-se contra ela como bofetadas no rosto. Alguns tentaram instrumentalizar esses pecados para pressionar os bispos. Alguns querem que eles adotem os julgamentos e a linguagem do mundo. Alguns bispos cederam à pressão. Nós os vemos pedindo o abandono do celibato sacerdotal ou declarações inconsistentes sobre atos homossexuais. Devemos nos surpreender? Os Apóstolos saíram correndo do Jardim das Oliveiras. Eles abandonaram a Cristo em sua hora mais difícil.

Nós devemos ser realistas e concretos. Sim, existem pecadores. Sim, há sacerdotes infiéis, bispos e até cardeais que não observam a castidade. Mas também - e isso também é muito grave - eles falham em manter-se fiéis à verdade doutrinária! Desorientam os fiéis cristãos por sua linguagem confusa e ambígua. Eles adulteram e falsificam a Palavra de Deus, dispostos a torcer e dobrar para obter a aprovação do mundo. Eles são os Judas Iscariotes do nosso tempo.

O pecado não deveria nos surpreender. Por outro lado, devemos ter a coragem de chamá-lo pelo nome. Não devemos ter medo de redescobrir os métodos de combate espiritual: oração, penitência e jejum. Precisamos ter uma visão clara para punir a infidelidade. Precisamos encontrar os meios concretos para evitá-lo. Creio que sem uma vida comum de oração, sem um mínimo de vida fraterna comum entre os sacerdotes, a fidelidade é uma ilusão. Devemos olhar para o modelo dos Atos dos Apóstolos.

Com relação aos comportamentos homossexuais, não caiamos na armadilha dos manipuladores. Não há "problema homossexual" na Igreja. Existe um problema de pecados e infidelidade. Não perpetuemos o vocabulário da ideologia LGBT. A homossexualidade não define a identidade das pessoas. Descreve certos atos desviantes, pecaminosos e perversos. Por esses atos, como por outros pecados, os remédios são conhecidos. Precisamos retornar a Cristo e permitir que Ele nos converta. Quando a falta é pública, as penalidades previstas pela lei da Igreja devem ser aplicadas. A punição é misericordiosa, um ato de caridade e amor fraterno. A punição restaura o dano causado ao bem comum e permite que o culpado se redima. A punição faz parte do papel paterno dos bispos. Finalmente, devemos ter a coragem de aplicar claramente as normas relativas à aceitação dos seminaristas. Homens cuja psicologia está profunda e permanentemente ancorada na homossexualidade, ou que praticam duplicidade e mentira, não podem ser aceitos como candidatos ao sacerdócio.

7) Um capítulo é dedicado à "crise da Igreja". Quando o senhor coloca precisamente o início desta crise e em que ela consiste? Em particular, como o senhor relaciona a "crise da fé" com a crise da "teologia moral". Uma precede a outra?

A crise da Igreja é acima de tudo uma crise da fé. Alguns querem que a Igreja seja uma sociedade humana e horizontal; eles querem que ela fale a linguagem da mídia. Eles querem torná-lo popular. Eles insistem que não se fale de Deus, mas que se joguem de corpo e alma em problemas sociais: migração, ecologia, diálogo, cultura do encontro, luta contra a pobreza, justiça e paz. Estas são, evidentemente, questões importantes e vitais, diante das quais a Igreja não pode fechar os olhos. Mas uma Igreja como essa não interessa a ninguém. A Igreja é de interesse apenas porque nos permite encontrar Jesus. Ela é apenas legítima porque ela nos repassa a Revelação. Quando a Igreja se sobrecarrega com estruturas humanas, obstrui a luz de Deus que brilha nela e através dela. Somos tentados a pensar que nossa ação e nossas ideias salvarão a Igreja. Seria melhor começar permitindo que ela se salve.

Eu penso que estejamos em um momento decisivo na história da Igreja. A Igreja precisa de uma reforma profunda e radical que deve começar por uma reforma da vida de seus sacerdotes. Os sacerdotes devem ser possuídos pelo desejo de santidade, pela perfeição em Deus e pela fidelidade à doutrina daquEle que os escolheu e enviou. Todo o seu ser e todas as suas atividades devem ser colocadas a serviço da santidade. A Igreja é santa em si mesma. Nossos pecados e nossas preocupações mundanas impedem sua santidade de se difundir. É hora de deixar de lado todos esses fardos e permitir que a Igreja apareça finalmente como Deus a criou. Alguns acreditam que a história da Igreja é marcada por reformas estruturais. Tenho certeza de que são os santos que mudam a história. As estruturas seguem depois, e não fazem nada além de perpetuar o que os santos trouxeram.

Precisamos de santos que ousem ver todas as coisas por meio dos olhos da fé, que ousam ser iluminados pela luz de Deus. A crise da teologia moral é a consequência de uma cegueira voluntária. Nós nos recusamos a ver a vida por meio da luz da fé.

Na conclusão do meu livro, falo de um veneno do qual todos sofrem: um ateísmo virulento. Ele permeia tudo, até mesmo nosso discurso eclesiástico. Consiste em permitir que modos de pensar ou conviver radicalmente pagãos e mundanos coexistam lado a lado com a fé. E ficamos bastante contentes com essa coabitação antinatural! Isso mostra que nossa fé se tornou diluída e inconsistente! A primeira reforma que precisamos está em nossos corações. Não devemos mais nos comprometer com mentiras. A Fé é tanto o tesouro que temos para defender, como o poder que nos permitirá defendê-la.

8) A segunda e terceira partes do seu livro são sobre a crise nas sociedades ocidentais. O assunto é tão vasto, e o senhor toca em tantos pontos importantes - desde a expansão da "cultura da morte" até os problemas do consumismo ligados ao liberalismo global, passando por questões de identidade, transmissão, islamismo, etc. - que é impossível abordar todos eles. Entre esses problemas, quais parecem ser os mais importantes e quais são as principais causas do declínio do Ocidente?

Primeiro, gostaria de explicar por que eu, um filho da África, me permito dirigir-me ao Ocidente. A Igreja é a guardiã da civilização. Estou convencido de que a civilização ocidental está passando no presente por uma crise mortal. Chegou ao extremo do ódio autodestrutivo. Como durante a queda de Roma, as elites só se preocupam em aumentar o luxo de sua vida cotidiana e os povos estão sendo anestesiados por um entretenimento cada vez mais vulgar. Como bispo, é meu dever avisar o Ocidente! Os bárbaros já estão dentro da cidade. Os bárbaros são todos aqueles que odeiam a natureza humana, todos aqueles que atropelam o sentido do sagrado, todos aqueles que não valorizam a vida, todos aqueles que se rebelam contra Deus, o Criador do homem e da natureza. O Ocidente está cegado pela ciência, pela tecnologia e pela sede de riquezas. A atração das riquezas, que o liberalismo espalha nos corações, sedou os povos. Ao mesmo tempo, continua a tragédia silenciosa do aborto e da euthanasia; a pornografia e a ideologia de gênero destroem crianças e adolescentes. Estamos acostumados à barbárie. Isso não nos surpreende mais! Eu quero levantar um sinal de alarme, que também é um grito de amor. Faço-o com um coração cheio de gratidão filial pelos missionários ocidentais que morreram na minha terra - a África - e que me comunicaram o precioso dom da fé em Jesus Cristo. Eu quero seguir seus os passos e receber sua herança!

Como eu não poderia enfatizar a ameaça representada pelo islamismo? Os muçulmanos desprezam o Ocidente ateu. Eles se refugiam no islamismo como uma rejeição da sociedade de consumo que lhes é oferecida como religião. Pode o Ocidente apresentar-lhes a Fé de uma maneira clara? Para isso, terá que redescobrir suas raízes e identidade cristãs. Para os países do terceiro mundo, o Ocidente é considerado um paraíso porque é governado pelo liberalismo comercial. Isso encoraja o fluxo de migrantes, tão trágico para a identidade dos povos. Um Ocidente que nega sua fé, sua história, suas raízes e sua identidade está destinado ao desprezo, à morte e ao desaparecimento.

Mas gostaria de salientar que tudo está preparado para uma renovação. Eu vejo famílias, mosteiros e paróquias que são como oásis no meio de um deserto. São destes oásis de fé, de liturgia, de beleza e de silêncio que o Ocidente renascerá.

9) O senhor termina este belo livro com uma seção intitulada "Redescobrindo a Esperança: a Prática das Virtudes Cristãs". O que o senhor quer dizer com isso? De que maneira praticar essas virtudes pode ser um remédio para a crise multifacetada da qual falamos nesta entrevista?

Não devemos imaginar um programa especial que possa remediar a atual crise multifacetada. Nós simplesmente temos que viver nossa fé completa e radicalmente. As virtudes cristãs são a fé florescendo em todas as faculdades humanas. Elas marcam o caminho para uma vida feliz em harmonia com Deus. Precisamos criar lugares onde elas possam florescer. Eu convido os cristãos a abrir oásis de liberdade no meio do deserto criado pelo lucro desenfreado. Precisamos criar lugares onde o ar seja respirável ou simplesmente onde a vida cristã seja possível. Nossas comunidades devem colocar Deus no centro. Em meio à avalanche de mentiras, devemos ser capazes de encontrar lugares onde a verdade não seja apenas explicada, mas experimentada. Em suma, devemos viver o Evangelho: não apenas pensar nisso como uma utopia, mas vivê-la de maneira concreta. A fé é como um fogo, mas tem que estar queimando para ser transmitida aos outros. Vigie este fogo sagrado! Seja o calor no seu coração neste inverno do Ocidente. "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8, 31). No desastre, na confusão e na escuridão do nosso mundo, encontramos "a luz que resplandece nas trevas" (cf. Jo 1, 5): Aquele que disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14, 6).

Artigo original em inglês: Catholic Herald


Observações

Traduzido do francês por Zachary Thomas (Original)

O texto francês publicado por La Nef editou o texto da entrevista dada pelo Cardeal. Esta é uma tradução do texto integral fornecido pelo cardeal.

Outros livros do Cardeal Sarah: "Deus Ou Nada Entrevista Sobre a Fé" e "Força do Silêncio: Contra a ditadura do ruído."

Notas de Rodapé 

[1] Ainda sem tradução para o português. Titulo do original em francês é "Le soir approche et déjà le jour baisse". Sua tradução para o inglês está sob o título "The Day Is Now Far Spent".

[2] Transumanismo (abreviado com H+ ou h+) é um movimento intelectual que visa transformar a condição humana através do desenvolvimento de tecnologias amplamente disponíveis para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas. Maiores detalhes acessar o artigo Transumanismo e o futuro (pós-) humano.

[3] Considerar falsamente (uma abstração, um conceito, uma ficção) como realidade; transformar uma relação lógica numa substância (no sentido ontológico da palavra). Atribuir abusivamente realidade absoluta a uma coisa relativa.