Acha Que é Santo? Não Se Orgulhe.

Não podemos chegar ao céu enquanto estivermos na terra... mas a Igreja nos oferece um caminho para nos aproximarmos.
Se a Quaresma corresponde especialmente ao caminho purgativo, e a Páscoa, juntamente com a Ascensão, abre diante de nós o caminho iluminativo, então o Pentecostes é uma imagem adequada do caminho unitivo: a idade espiritual dos perfeitos, na qual a alma, tendo sido profundamente purificada, vive em uma união mais estável, íntima e duradoura com Deus.
Naturalmente, a única expressão verdadeira do caminho unitivo é a nossa própria ressurreição. Reitero que estamos simplesmente usando o dom do calendário litúrgico para contemplar a progressão da vida espiritual com marcos adequados.
A fase unitiva não significa que a alma tenha chegado ao céu. Ela ainda caminha pela fé, não pela visão. Ela ainda sofre. Ela ainda carrega sua cruz. Mas houve uma verdadeira transformação. A alma já não vive meramente nos primeiros esforços de conversão, nem apenas na luz dolorosa de uma purificação mais profunda. Ela passou, pela graça, a uma conformidade mais profunda com Deus, uma vida marcada pelo recolhimento habitual, por uma paz mais profunda, por uma caridade mais pura e por uma docilidade mais constante ao Espírito Santo.
É por isso que o Pentecostes constitui um ponto de referência tão adequado. O Pe. Reginald Garrigou-Lagrange diz dos Apóstolos que, após a Ascensão, eles ficaram privados da "presença da humanidade de Cristo", mas que no Pentecostes foram "transformados, iluminados, fortalecidos e confirmados na graça pelo Espírito Santo". Esse movimento — da privação, das trevas e da espera, para a transformação pelo Espírito Santo — é exatamente o que torna o Pentecostes uma imagem tão adequada do caminho unitivo.
A Purificação Passiva: Continuação
Assim como a transição para a fase iluminativa, uma purificação mais profunda (a noite escura do espírito) marca a travessia pela fase unitiva. Nosso Senhor diz: "Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta, e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda".
Garrigou-Lagrange, seguindo Sãanto Tomás, insiste que mesmo aqueles que já estão dando frutos devem ser podados. Por quê? Porque mesmo as almas avançadas ainda carregam defeitos profundos nas faculdades superiores da alma. Ele fala dos "resquícios de orgulho espiritual ou intelectual", do "julgamento pessoal", da "teimosia" e do "egoísmo sutil" ainda escondidos nas profundezas. Essas coisas devem ser trazidas à luz e queimadas para que a alma alcance a união íntima com Deus.
Isso é preocupante, mas também libertador. Significa que as provações que Deus envia não são sem sentido. Elas são frequentemente os meios pelos quais Ele purifica o que nunca poderíamos alcançar por nossos próprios esforços. Garrigou-Lagrange diz que essa purificação é "a luta decisiva entre dois espíritos: o espírito do orgulho... e o da humildade e da caridade". É por isso que os santos rezaram com uma honestidade tão assustadora. A oração de Santo Agostinho, repetida mais tarde por São Luís Bertrand, é tão direta como sempre: "Senhor, queima, corta, não poupes nesta terra, para que possas poupar na eternidade".
A questão é simples: é melhor ser purificado aqui, com mérito, do que mais tarde, sem ele. (Ou seja, não adquirimos mérito com nossos sofrimentos no purgatório — o mérito é para aqueles que vivem na terra.)
O Pentecostes só faz sentido depois disso. O Espírito Santo não desce simplesmente sobre as almas que se contentaram com o amor próprio. Ele enche aqueles que esvaziou. Ele fortalece aqueles que humilhou. Ele inflama aqueles que purificou. Tauler, citado por Garrigou-Lagrange, diz que o Espírito Santo cria "um vazio nas profundezas de nossas almas, onde ainda habitam o egoísmo e o orgulho". Ele cria o vazio "para que possa nos curar, e então o enche até transbordar, aumentando continuamente nossa capacidade de receber".
A alma fechada em si mesma deve ser aberta para que Deus possa habitar e reinar ali mais plenamente. E como é essa vida?
Uma Terceira Conversão?
Garrigou-Lagrange escreve:
Após a purificação passiva do espírito, que é como uma terceira conversão e transformação, os perfeitos conhecem a Deus de uma maneira quase experimental, que não é transitória, mas quase contínua.
Essa é uma das marcas definidoras do caminho unitivo. A alma não se volta mais para Deus apenas em momentos escolhidos, nem mesmo principalmente na meditação. Pelo contrário, ela vive cada vez mais em sua presença. "Não apenas durante a Missa, o Ofício Divino ou a oração, mas no meio das ocupações externas, permanecem na presença de Deus e preservam a união real com Ele."
Vale a pena deter-se nessa frase. O caminho unitivo não é escapismo. Não é um afastamento da vida cotidiana. É a transformação da vida cotidiana por meio de uma referência quase contínua a Deus - a única maneira de genuinamente "orar sem cessar".
Garrigou-Lagrange explica isso por contraste com o egoísta. "O egoísta pensa sempre em si mesmo", diz ele, e "sua conversa íntima consigo mesmo é interminável". Mas "o homem perfeito, ao contrário, em vez de pensar sempre em si mesmo, pensa continuamente em Deus, em sua glória e na salvação das almas". Esse é um dos sinais mais claros de santidade: a alma não está mais voltada para dentro, sobre si mesma, mas para fora e para cima, em direção a Deus e ao próximo.
Pentecostes como o Enchimento pela Presença de Deus
Isso também explica por que Pentecostes é uma imagem tão adequada. Após Pentecostes, os apóstolos não estão mais preocupados consigo mesmos. Não se escondem mais por medo. Não discutem mais quem é o maior. São totalmente absorvidos pela missão de Cristo pelo fogo do Espírito Santo.
A alma, no caminho unitivo, também passa a conhecer-se de maneira diferente. Garrigou-Lagrange diz que os perfeitos conhecem-se "não mais apenas em si mesmos, mas em Deus, seu princípio e seu fim".
Essa é a verdadeira humildade. A alma vê sua indigência mais claramente do que antes, mas sem desânimo. Ela vê que nada pode fazer sem a graça, que todo bem vem de Deus e que até mesmo suas próprias virtudes são dons. Isso não produz paralisia, mas paz. A alma não precisa mais se defender tão fervorosamente, nem se comparar tão constantemente, nem se agitar com o sucesso ou o fracasso de seus próprios projetos.
É aqui que o amor puro começa a se manifestar mais plenamente. Garrigou-Lagrange diz que o homem perfeito ama a Deus "aderindo a Ele, deleitando-se n'Ele". Ele chega a dizer que a alma deseja o céu "menos por sua felicidade pessoal do que para que possa glorificar eternamente a bondade divina".
Ufa. Quando você não está nesse ponto, percebe quanto trabalho ainda precisa fazer!
Nesta fase, a alma busca a Deus mais puramente por Deus mesmo. Ela ainda espera pelo céu, é claro, mas seu centro de gravidade mudou. Ela deseja a Deus mais do que os dons de Deus.
E, como a caridade se tornou mais purificada, a paz torna-se mais difícil de ser perturbada. Garrigou-Lagrange diz que tais almas "quase sempre mantêm a paz, mesmo em meio às circunstâncias mais dolorosas e imprevistas". Não se trata de uma calma ou passividade temperamental. É o fruto da predominância da caridade e da sabedoria sob a orientação do Espírito Santo.
A Habitação da Santíssima Trindade
Tudo isso encontra sua explicação mais profunda no mistério da habitação da Santíssima Trindade. Garrigou-Lagrange insiste que a união transformadora não é, em essência, algo extraordinário, mas está enraizada no que já nos é dado pela graça. Cristo diz: "Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada". O caminho unitivo é, nesse sentido, o desabrochar mais pleno do que se iniciou no batismo: a vida da graça, a habitação de Deus, a alma cada vez mais transformada em um templo vivo.
Pentecostes, então, não é meramente um evento que recordamos. É um modelo para a vida espiritual. O Espírito Santo desce, purifica, ilumina, fortalece e une. Ele torna a alma recolhida, pacífica, generosa e apostólica. Ele dá não apenas luz, mas fogo — o fogo do amor divino.
Esse é o ponto para o qual toda a vida cristã tende. A Quaresma nos ensina a nos arrepender e a lutar contra nossas paixões. A Páscoa nos ensina a viver à luz de Cristo ressuscitado. A Ascensão nos ensina a elevar nossos corações acima do que é terreno. Mas o Pentecostes nos mostra o objetivo de tudo isso: uma alma tornada dócil ao Espírito Santo, esvaziada de si mesma, cheia de Deus e já vivendo o prelúdio normal do céu.
Autor: Joshua Mazrin
Original em inglês: Catholic Answers
Leituras sugeridas:
- Algumas Obras do P. Réginald Garrigou-Lagrange, O.P. (em espanhol)