A Realidade Mais Profunda Do Maior Evento Que Já Aconteceu

25/03/2026

Para a Quaresma deste ano, resolvi rezar o Angelus pela manhã, ao meio-dia e à noite – uma prática, claro, que há muito faz parte da piedade católica. Na minha vida adulta, tenho sido irregular na adesão a essa prática, e este ano queria mudar isso. (Por favor, não perguntem como tenho me saído até agora!)

Fui inspirado a fazer essa resolução por uma passagem de Dom e Mistério, de São João Paulo II, que ele publicou no 50º aniversário de sua ordenação. Este pequeno e denso livro conta a "história da vocação" de João Paulo II.

Para um homem que escolheu "Totus Tuus" como seu lema episcopal, não é surpresa que Maria tenha desempenhado um papel influente nessa história. Desde cedo, parece que Karol Wojtyla rezava o Angelus três vezes ao dia. De fato, quando trabalhava na pedreira na juventude, Karol costumava parar ao meio-dia, largar o que carregava e rezar o Angelus em silêncio – uma cena que seus colegas de trabalho achavam admirável, mas também um tanto divertida. Esse é o destino de quem se apaixona por Maria!

Ao aprender mais sobre Maria e consagrar-se a ela (sob a orientação de São Luís Maria Grignion de Montfort), o jovem Karol "compreendeu por que a Igreja reza o Angelus três vezes ao dia". As "palavras poderosas" dessa oração, escreve ele, "expressam a realidade mais profunda do maior evento que já ocorreu em toda a história".

É uma afirmação complexa, sem dúvida, e ainda assim, que afirmação impactante! Especialmente nesta Solenidade da Anunciação, uma festa que poderíamos apelidar de "Dia do Angelus". Sua descrição do Angelus destaca o que há de tão significativo, e ainda assim tão oculto, no evento que celebramos hoje.

Hoje celebramos o anúncio de Gabriel a Maria de que ela conceberá em seu ventre e dará à luz um filho, a quem chamará Jesus (Lucas 1,31). O anúncio de Gabriel é, na verdade, uma proposta, visto que Maria permanece livre para aceitar a declaração de Gabriel, feita no tempo futuro, como seu próprio futuro... ou não.

Anunciação (detalhe do Tríptico do Retábulo de Mérode, painel central) de Robert Campin, c. 1427–32 [The MET Cloisters (1), Nova Iorque]
Anunciação (detalhe do Tríptico do Retábulo de Mérode, painel central) de Robert Campin, c. 1427–32 [The MET Cloisters (1), Nova Iorque]

Em uma homilia muito conhecida, São Bernardo de Claraval, outro devoto de Maria, captura o drama daquele momento de forma tão bela:

"Ouvistes, ó Virgem, que conceberás e darás à luz um filho; ouviste que não será de mão de homem, mas do Espírito Santo. O anjo aguarda uma resposta; é hora de ele retornar a Deus que o enviou. Nós também aguardamos, ó Senhora, a tua palavra de compaixão; a sentença de condenação pesa sobre nós".

Bernardo nos conduz à magnitude deste momento. Ele intui, neste momento do Angelus, o que o próprio João Paulo II descreve: "a realidade mais profunda do maior evento que já ocorreu em toda a história". É o ponto de virada, e nós, que nos colocamos ali com Gabriel, também aguardamos a resposta de Maria.

De fato, minhas próprias tentativas durante a Quaresma de recitar o Angelus três vezes ao dia reforçaram a descrição que João Paulo II faz deste momento, que contém duas afirmações implícitas e fundamentais que deveriam permear a mente de todo cristão diariamente — e especialmente hoje.

A primeira afirmação é que o momento da Anunciação é, de fato, o maior evento de toda a história. Toda a história gira em torno desse evento, da decisão de Maria e do que dela resulta, ou seja, a concepção absolutamente oculta e misteriosa de Jesus Cristo em seu ventre.

Este é o momento transformador do mundo, a Encarnação do Verbo de Deus. Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis. Toda a história até aquele momento o antecipava, e toda a história posterior desdobrou e continuará a desdobrar sua realidade e significado. E no centro de tudo está a Anunciação de Gabriel e a recepção dela por Maria.

A segunda afirmação é, de certa forma, ainda mais misteriosa: que o Angelus captura a realidade mais profunda desse maior evento da história. O drama supremo da Anunciação reside oculto na interioridade pessoal de Maria, em seu coração, em seu exercício deliberado e presente de liberdade em resposta à proposta de Deus.

A Visão de São Bernardo (ou a Aparição da Virgem a São Bernardo) de Filippino Lippi, 1485-1487 [Badìa Fiorentina, Florença, Itália]
A Visão de São Bernardo (ou a Aparição da Virgem a São Bernardo) de Filippino Lippi, 1485-1487 [Badìa Fiorentina, Florença, Itália]

De fato, quando desvendamos tudo o que levou a este momento, bem como tudo o que se desenrolou depois, no âmago da questão está uma jovem mulher em conversa com Deus nas profundezas de sua consciência, e dentro desse santuário interior ela decide livremente empreender o que Deus propôs – e participar, assim, de Sua recriação de todas as coisas.

Então, de forma muito apropriada, ela responde: "Fiat!" Essa troca tão íntima entre uma criatura e seu Deus dá origem ao maior evento de toda a história: a Encarnação; tal é a "realidade mais profunda", a atualidade mais oculta, desse evento transformador do mundo.

Devemos nos lembrar disso diariamente. Devemos nos lembrar de que a realidade mais profunda da história não reside nos eventos ruidosos e nas ações clamorosas que constituem todas as notícias, verdadeiras ou falsas, que merecem ser impressas. A realidade mais profunda da história reside, diariamente, nos movimentos dos corações de pessoas humanas únicas que se colocam diante de Deus no santuário de suas consciências, escolhendo livremente colaborar com Suas propostas… ou não.

Dessa forma, então, nós também podemos participar da Anunciação, da disposição de dar carne a Cristo no mundo, em cada decisão consciente que tomamos, por menor ou maior que seja. Essa é a lição do Angelus; essa é a lição da solenidade de hoje.

O verdadeiro drama de nossas vidas reside dentro de nós, e diz respeito a aceitarmos, livre e conscientemente, em nossos corações a realidade de Jesus Cristo... ou não.

Parece tão apropriado, portanto, que quase todos os anos a Solenidade da Anunciação ("Dia do Angelus") nos atinja durante a Quaresma, durante aquele período do ano, a princípio temido, mas que acaba sendo acolhido, quando, pelo jejum, pela oração e pela caridade, somos lembrados do que há de mais essencial em toda a história e da realidade mais profunda de nossas próprias vidas.

O Retábulo de Mérode (2)
O Retábulo de Mérode (2)

Autor: Matthew Walz

Original em inglês: The Catholic Thing 


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